assim me trazes às palavras, com este presente de tanto nas asas do sentir,
em que
"se reconhecem os valores que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc., que, em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras. esses selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os blogueiros, uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à web.
quem recebe o “prémio dardos” e o aceita deve seguir algumas regras:
1. - exibir a distinta imagem;
2. - linkar o blog pelo qual recebeu o prémio;
3. - escolher quinze outros blogs a que entregar o prémio dardos. "
por esta janela que me abre (a)o escrever vejo e sinto os passáros que a meu lado voam. comigo. eu neles.
nessa outra, onde adormeço em estrelas e acordo na côr do dia, o canto de gaivotas trouxe-me já o mar em sorriso de acordar. o mar que provo também nos olhos quando mergulho em todas as memórias que solto neste espaço novo, algumas tão longe dos dias de hoje, fechadas nestes quadrados guardiões dessa vida a que regresso agora, só agora, um ano e meio depois, todo este tempo trancados para que a mim encontrasse, finalmente, eu, no que sou e sinto e vivo. sem nada mais. e tanto, afinal....
abro cada caixote como quem volta ao passado.
volto.
abro fundo esse tempo de antes e nele passeio sem rede ou volta marcada.
mas regresso sempre. regresso sempre a quem sou.
para além do que é não-saber.
vivo (n)a vida.
deixo que me viva.
sou e respiro o que voa (n)o tempo.
o que me trago eu nele.
(dreaming about wings, bogdan zwir)
..
" (...) não pensemos mais: esta é a casa:
tudo o que lhe falta será azul,
agora só precisa de florir.
e isso é trabalho da primavera. "
(pablo neruda)
(nesta casa nova de mim, é tão forte às vezes o vento nas janelas...
e é só só um segundo andar..
....
mas é bonito.
às vezes lembra-me a noite do mar.
como se perto da praia, quando fecho os olhos e respiro em mim seu marulhar.)
( " eu ando pelo mundo prestando atenção em cores que eu não sei o nome - cores de almodovar, cores de frida kahlo, cores...
passeio pelo escuro - eu presto muita atenção no que meu irmão ouve; e como uma segunda pele, um calo, uma casca, uma cápsula protetora
- ah, eu quero chegar antes... pra sinalizar o estar de cada coisa, filtrar seus graus
eu ando pelo mundo divertindo gente, chorando ao telefone.. e vendo doer a fome dos meninos que têm fome
pela janela do quarto, pela janela do carro, pela tela, pela janela, quem é ela, quem é ela? - eu vejo tudo enquadrado, remoto controle....
eu ando pelo mundo e os automóveis correm para quê? as crianças correm para onde?
transito entre dois lados de um lado eu gosto de opostos... exponho o meu modo, me mostro
- eu canto para quem?
pela janela do quarto, pela janela do carro, pela tela, pela janela, quem é ela, quem é ela? - eu vejo tudo enquadrado, remoto controle....
eu ando pelo mundo e meus amigos.... cadê? minha alegria, meu cansaço?..
meu amor cadê você? eu acordei - não tem ninguém ao lado
pela janela do quarto, pela janela do carro, pela tela, pela janela, quem é ela, quem é ela? - eu vejo tudo enquadrado, remoto controle....
eu ando pelo mundo e meus amigos.... cadê? minha alegria, meu cansaço?..
meu amor cadê você? eu acordei - não tem ninguém ao lado
pela janela do quarto, pela janela do carro, pela tela, pela janela, quem é ela, quem é ela? - eu vejo tudo enquadrado, remoto controle.... " )
" que tipo de diário gostaria que o meu fosse?.... algo pouco formal, e ao mesmo tempo não desmazelado. tão elástico que abranja qualquer coisa - sólida, ligeira ou bonita - que me venha ao pensar. gostaria de o assemelhar a uma grande secretária velha, ou a uma mala espaçosa, para a qual se atira todo o tipo de coisas sem olhar. gostaria de a ele voltar, após um ou dois anos, e descobrir que a colecção - como acontece misteriosamente com estes depósitos - se refinou e a si mesma organizou num molde, transparente o suficiente para reflectir a luz da nossa vida, mas ao mesmo tempo uma amálgama estável e tranquila "
(virginia woolf, a writer's diary)
...
" sabe aquele blog do tipo que, apesar da sua vida corrida, com milhões de relatórios pra entregar, clientes pra recepcionar, patrão te enchendo o saco, você não pode deixar de dar uma olhadinha para conferir as novidades? aquele blog que você lê todo santo dia, mesmo que não haja novidades? aquele tipo que, no trabalho, ou numa caminhada, ou num churrasco entre amigos, você não vê a hora de acessar a internet pra dar uma olhadinha? enfim... pra atalhar... aquele blog que não te sai da cabeça??? presenteie, então, o autor desse blog com esse selo..."
...
"este diário é o meu cachimbo de erva, haxixe e ópio. é a minha droga e o meu vício."
sem amigo companhia ou criança que comigo percorra a solidão que hoje me fere sem cuidado ou respeito, invento um esquimó de terra distante e desconhecida, como se essa em que vivo esta agora tristeza, para que me ouça, me cale, me chore.
falo-lhe do acordar vazio, do não abrir dos olhos para tentar ainda calar o frio dentro, do procurar depois em todos os lugares um qualquer sinal de acalento, como se não soubesse tão bem como é negro, pintado à mão, devagar, o abandono de quem. em tudo.
conto-lhe dos dias passados escondida em quarto de mim, sem que o saiba ninguém. das portas trancadas nesta casa que não habito sozinha, mas que não é vida comigo, esta casa onde me fecham caras todo o dia, onde não há música ou partilha, conforto ou um só sorriso que ajude ao passar (d)o medo.
tiredness fuels empty thoughts
i find myself... disposed
brightness fills empty space
in search of... inspiration
harder now with higher speed
washing in on top of me
so i look to my eskimo friend
i look to my eskimo friend
i look to my eskimo friend
when i'm down
down
down
rain it wets muddy roads
i find myself... exposed
tapping does but irritate
in search of... destination
harder now with higher speed
washing in on top of me
so i look to my eskimo friend
i look to my eskimo friend
i look to my eskimo friend
when i'm
d
o
w
n
.
.
.
.
digo-lhe, confesso-lhe, que não há tristeza maior que a solidão, por maiores tantas outras dores... não há sentir que me cale como este. que me enmure. me inunde o dia de quietude e sal. eu que tento saber do que é, do que existe, do que somos sem razão de sentir. assim de triste, não há.
explico-lhe a ele, meu amigo inventado, o tanto tudo que queria um qualquer acalento, um olhar fundo ao que sou, qualquer coisa mais que estas paredes que me não falam, este silêncio que me não ouve, a gente perto que não tenho, não me existe, este longe que não sei preencher só.
vejo as lágrimas que recuso chorar descerem por seu rosto moreno, até sentir nos lábios o gosto de minha própria tristeza, eu escondida na vergonha de me saber assim, sem força, quase sem vida, eu que sei que é vida tanto, que o amor está em tudo o que vêem os olhos, que a paz são os passos que damos em nós, um de cada vez...
mas hoje hoje acordei demasiado pesada de nada para mo fazer saber.
porque não-outros. ninguém. voz nenhuma ao apertar de uma mão, a lembrar-me que(m) sou.
e eu não sei viver sem gente perto.
e por isso me lembra, ele mo lembra, da força da água, da força de mim, dos abraços de longe, os abraços dentro de quem nos é sempre - porque há, há mesmo quem seja sempre... -, os sorrisos de minha gente, os cheiros de meu país, tudo o que aqui me não é fora, hoje mais ainda, mas é tanto, tanto dentro.
e eu sei, sei de tudo... sei das vozes dentro, do calor, da luz, das mãos, dos sorrisos... sei do mar. sei de tudo.
when i'm down
down
down
when i'm down
down
down
when i'm down
down
down
e sei-me meu próprio esquimó.
(imagens: eskimo child, de edward s. curtis. fatality e roads which aspire to light, de bogdan zwir)
há vozes que me chamam e falam mais que a minha língua...
vêm de todos os lados e são como vidas que me trazem a vida, me lembram a doçura da humanidade fugaz, me fazem acreditar que é sempre possível ser-se melhor...
(assim sorrimos de tudo frente a um arco-íris chovido que invade a cidade cinzenta, uma lua cheia que respira todo um campo de folhas sonhadas, caídas em côr, um sol que nu e vermelho mergulha em água e sal de mar...
assim nós. como quem olha a vida nos olhos e vê para além dela.
..
para além do que.)
aceitar quem dói, aceitar a ausência, aceitar escolhas e escolher escolher sorrir sobre tudo.
..
sobretudo sorrir.
ser verdadeira ao olhar que procura, deixar que entre nos olhos, por pouco que seja, que entre, se sente à beira, como se. deixar-se invadir pelas palavras que tocam, levam o pensar sem que se pense, fazem voar de intimidade a desconhecida distância. hesitar, ainda, na entrega da verdade, em verdade, a entrega antes da paz, dentro, porque não-paz esta serenidade que o não é, porque não-completa, inteira, ainda... mas deixar, deixar que os olhos. beber das palavras, saborear-lhes o toque, em segredo. deixar que confortem e possam ser a vida que se faz.
acordar a cada dia e sorrir, sorrir só, sorrir com, em alegria de vida.
pela vida.
na vida.
e assim ser cada segundo.
...
isto assim, neste preto e branco de côr, vejo eu, faço por, quando olho em frente.
comigo, em mim, na travessia do presente.
com tudo o que (não) ficou para trás.
..
ainda se sente.
...
assim eu, no mundo, em sal de saudade, vida e verdade.
assim eu, em mim, em teimoso renascer - como quem refaz e relembra a cada noite o amanhecer.
(imagem de bogdan zwir)
" os desejos mais puros e ardentes do coração são sempre realizados. "
(mohandas k. ghandi, in "a minha vida e as minhas experiências com a verdade")
tenho um caderno, ainda, hei-de ter sempre, onde escrevo quando me inundam tanto os sentires que não posso segurá-los dentro, e assim os (re)vivo na escrita, como quem liberta fantasmas, sacode a dor dos ombros, recebe em si mesma sons e silêncios de vida.
às vezes sem caderno ou papel, sem caneta ou, noto um escrever constante. - escreve-se sempre dentro de mim.
..
são muitas as noites, às vezes tardes, em que me sento a esta mesa, puxada pelas palavras desse caderno ou por outros mesmos sentires ainda não escritos e aqui deposito o que me vai dentro, às vezes de forma tão violenta que me sangram quase os dedos, outras tão de mansinho que podia chorar. como se, como num, como no nu caderno.
escrevo neste espaço como quem se senta em frente ao mar e lhe oferece o sentir, lhe dá o choro a ouvir, se ri, sorri, a medo, de vida com ele.
leio as ondas que me chegam à praia como quem colhe conchas, uma a uma, devagar, lágrimas como_vidas no rosto e nas mãos, abismada pelas tantas cores em que lhe adivinham e reforçam vontades, suspiram dizeres escondidos, relembram segredos de vida.
.
por isso te agradeço, a ti, por tudo o que disseste e me fizeste sentir.
e por isto...
“é um prémio especial para mulheres que, na sua escrita, mostram uma preocupação pelo mundo à sua volta e ainda conseguem dar um pouco de si e dos seus sentimentos e com isso tornar mais leve a vida dos outros. este prémio foi feito para mulheres, mães e profissionais que espalham a palavra de uma forma emotiva e cativante. que nos falam da guerra mas também do amor”.
porque escrever é só o que mais dentro sou, muito mais às tantas vezes do que o que falo, digo, mostro - e está em ti a leveza das palavras que lês.
por me mostrares, também tu, a partilha, essa benção que descubro dentro e me faz descobrir tudo o que.
me descobre, segura.
...
a todos vocês que aqui vêm, me tornam leve, e a mim mesma devolvem em ondas de palavras, quando o escuro e a dor lutam por roubar-me à escrita, o meu tanto obrigada.
o sangue da língua, a canto das veias, o vento da voz....
ouço na noite as gaivotas que me chamam à terra de mim.
.....
aterro.
o calor do sol...
eu maré de perguntas livres de sentido e respostas.
- como é que...? - mas não...?
- for good?
..
(for good.................................?)
..
lisboa. ando pelas ruas. ando só cheia de tudo o que sou. cheia como a lua. com a lua. cheia. mesmo se a cheiura de mim é tão relativa quanto o amor que foi (sen)tido. contínuo. contínua. continua. continuo.
prossigo. ando. ando mais. ando muito. os rapazes da água a gritarem-me ao sangue, a fazerem-me mar aqui em mim. that was the river. cada minuto passado. this is the sea. cada minuto presente.
o mar, o mar, o mar... meu mar de embalo, meu mar de mim.........
entro numa casa. fala-se amor à minha volta. há olhos de meninice, nos que crianças e nos que não. olho-os ao espelho e sei-os verdade, a cada um, no que me é dentro, no que somos, como um, tanto, para sempre. - minha família de sangue, tribo de amor e justiça...
passo no bairro das ruas tortas, que se entortam, e são como um filme, os amigos. olho-nos de fora sem que o saibam e sorrio tanto, é-me tão feliz este tempo todo, anos de nós, de intimidade e cumplicidade, que ficam, e agora outra vez, mais esta vez, aqui.
(decido não fazer por tentar ver o amor, descobri-lo, um vestígio de, como se não fosse tão cruelmente óbvio, o seu estrangular na escolha da vida sem, desequilíbrio, desequilíbrio, resisto, desisto, caio de novo, caio nos olhos, na vontade, no presente, um momento, um só, um só que queria saber que querido também, só, caio, caio, nós cada vez mais longe, sem a fala, sequer, caio, calo, caio, dói-me a dor, a sua também, dói-me tamanho cansaço de vida, sem que possa, sem que ouse sequer tentar ajudar, porque agora, porque o amor deitado fora, o violar do sagrado, o abandono, tão só isso, total, longe, o alívio que já não vem de meus braços, a paz que se consegue sem mim, caio, caio, mas caio com asas, asas que me esqueço de abrir, esqueço de usar, porque não sei, não sei ainda, e era contigo que eu queria dançar. acordo antes do fundo, ladeada por esse lugar em tempos imaculado, intocado por quem senão, acordo, acordo, bato as asas, danço de olhos fechados mas danço, suspensa, surpreendida, ainda, neste limbo de transição, sem ter aberto de vez a mão para deixar, também eu, ir o amor sem salvação, roubado até de seu porto de abrigo, sem asas ou vida humana que o lembrem de ter sido real.
cuando te hablen de amor y de ilusiones y te ofrezcan un sol y un cielo entero; si te acuerdas de mí no me menciones porque vas a sentir amor del bueno.
y si quieren saber de tu pasado es preciso decir una mentira, dí que vienes de allá de un mundo raro, que no sabes llorar, que no entiendes de amor y que nunca has amado.
porque yo a donde voy, hablaré de tu amor como un sueño dorado y olvidando el rencor no diré que tu amor me volvio desgraciado.
y si quieren saber de mi pasado, es preciso decir otra mentira, les diré que llegué de un mundo raro, que no sé del dolor, que triunfé en el amor y que nunca he llorado.
e eu hei-de deixar de sentir-nos em cada rua de então.)
.
é fim de tarde. de todos os cantos da fotografia me espreita a luz de cima, em céu claro, azul de olhos, também, sol radioso, radiante de vida nesta cidade que sou. mesmo se por vezes ainda aqui me não acho lugar. em todas as ruas te encontro. ainda. em todas as ruas me perco.
..
dá-me a mão, lisboa, vem perder-te comigo, vem ser em mim a beleza de força e entrega de minha mãe, vem sentar-te a meu lado ver a bianca luz que nos invade de carinho, já, vem abismar-te de orgulho e gratidão por essa cinderella que tanto dá aos que lhe são dentro, e que agora abre coração e vida a uma menina a quem ensinará o amor, a família, a segurança eterna de não estar só. e o mundo, só por isso, ser tão mais bonito e alegre, hoje.
...
o mar, o mar, o mar... meu mar de embalo, carinho, certeza... mar da comporta, mar de mim...............
...
minha casa de água salgada que não ouso ainda provar, por mais que me (es)corra na pele... faço-me as malas. (re)parto(-me) de novo.
mas aqui morarei um dia. sei-o, fundo.
por mais que eu. por mais que tu. por mais que o mundo.
(" the times we had oh, when the wind would blow with rain and snow we're not all bad we put our feet just where they had, had to go never to go
the shattered soul following close but nearly twice as slow in my good times there were always golden rocks to throw at those who, those who admit defeat too late those were our times those were our times
and i will love to see that day that day is mine when she will marry me outside with the willow trees and play the songs we made they made me so and i would love to see that day her day was mine" )
“ tenho uma amiga que me conhece para além do tempo. para além de tudo. tem olhos de céu, sorriso côr de criança e a vida a nascer-lhe das palavras. com ela, por ela, escolhi, reaprendi essa vida, a vida viva, essa de dádiva e abraços, há 14 anos atrás.
tenho uma amiga que me conhece para além de mim. para além do que. olha-me nos olhos e eu sei que posso ser verdade, sei que quero ser vida, que preciso ser eu. com ela, nela, a dor e a morte são derrotadas. por ela, a coragem da vida renasceu. ”
(lisboa, 18.07.07)
...
no ano de ’93, sem que nos conhecêssemos ou soubéssemos quão perto estavámos, já, quão enleadas nossas vidas se tornavam, flechinha e eu vivíamos sentires semelhantes, inigualáveis de dor e espanto, incompreensíveis por todos os que não os sofriam, ali, connosco, nós adolescentes atordidas de realidade e adulthood, sem aviso ou trégua possível.
quando nos conhecemos, quando primeiro falámos e nos sorrimos de e em vida, apesar de tudo o que, passava um mês exacto sobre dessa data que nunca ouvirei ou sentirei de maneira quotidiana, nunca será confundida com nenhuma outra, nunca fará parte de um calendário normal, como se viessem todos com defeito de fabrico, como a vida, essa, todos com esse dia assinalado a dor. eu tinha já feridas abertas que não entendia mas me ardiam, lágrimas com sabor a morte, um viver que eu desconhecia e não sabia sentir. ela vivia o pesadelo dos dias que traziam a incerteza da certeza do medo do amanhã.
lambemos feridas juntas, trocámos vidas e lembranças desses dias de desespero e confusão, tantas e tantas vezes, tantas e tantas noites de palavras e lágrimas e partilha de tudo o que éramos, queríamos ser, e o que não sabíamos que era em nós, também. fomos dúvida do presente agarradas ao passado, mas fomos juntas, passo a passo, em direcção a qualquer coisa que existia, devia existir, lá mais à frente - flechinha com todo o amor, força e uma recusa quase teimosa em ver-me desistir do que fosse em mim. porque eu, eu afundei-me na dor não-prevista e injusta da morte de quem tanto vivia e mais queria viver. eu quis afundar-me nos dias, ser sombra, ser não-vida. recusar-me ao viver em jeito de protesto. e quando me recusei a sair de lisboa porque o corpo de quem, mesmo se morto, era aqui que morava, aqui condenado a ficar para sempre, quando disse não ao viajar para qualquer sítio que me tirasse desta cidade, que me tirasse da proximidade do seu corpo, porque isso pelo menos – acreditava eu – existia ainda, e me parecia tão injusto, tão terrível aquilo que eu via como abandono, flechinha, em meiguice e impenetrável amizade, estendeu-me a mão e puxou-me à vida. quando ninguém mais, eu culpada, o pôde fazer. durante meses a fio, esteve a meu lado, até eu voltar a saber ter e viver o peso do que era em mim própria, sem refúgios, fugas ou abandono de mim.
para além da distância que a vida sabe e pode trazer, soubemos ter-nos sempre dentro, por maior o longe fora, por maior o mundo em muro entre nós: eu sabia, soube sempre, que no momento do precisar a vida não me faltaria. porque ela.
quando emigrei, o conforto de sabê-la na mesma terra. ela que me precisava, também, tanto, mas que apesar disso, quando lhe confessava o choro, quando me doía o medo e o peso da fraqueza da saudade, me dizia “se não és feliz, se assim, aqui, não consegues ser força na felicidade, vai. volta. volta para longe de mim, mas fica perto do que te faz força e te é dentro.” ... fiquei. com a sua força na minha, também. fui ficando até voltar, voltando até ficar.
aquando do início do pesadelo, no ano passado, embrulhou-me a amizade em presente – ela que tanto poderia ter-se “desumanizado”, por tudo o que, nesse ano – e tentou, da única forma (im)possível, proteger-me do futuro que já tinha vivido. esteve comigo, a meu lado, sentada na cadeira que não existia naquele quarto de hospital que não sei já se existiu, também, de manhã à noite, e madrugada fora, flechinha esteve comigo a cada instante de espera, ânsia e recusa do amanhã, tanto e tão mais do que outros, “perto”... e nunca nunca me abandonou em mim. a ela, só a ela, confessei – nesses dias de desmesurado nada - a fraqueza sob o peso que não queria admitir a ninguém mais. mesmo se. porque. - não aguento mais. é como que lhe paro o sofrimento?, é como que se vive isto?...... e ela, a meu lado, a vivê-lo comigo, a sofrer comigo, sem nunca, nunca, me largar a mão ou a vida.
...
e agora, agora, ontem ainda, no carinho e calor de uma casa de tanto e tão bonito, tão sentido amor, flechinha e sua metade a “convidar”em-me a ser madrinha do novo ramo de sua árvore de vida. godmother lhe chamam na terra onde vivemos nós. ... e assim, pela mão de flechinha, como tanto mais, antes, me torno mother pela primeira vez. e nem sei dizer do orgulho que me traz lágrimas à voz e este sorriso de sentir aos olhos por ser um filho seu, vindo dessa união de tanto tudo, que me é tão dentro, que faz querer chorar de feliz, eu simples visita nessa casa de amor. e penso, sei, que não poderia ser de outra maneira. de outra pessoa, antes de.
porque nela a força. nela o apoio. o exemplo de coragem, não-entrega ao que tenta e faz por vergar e quebrar. nela o amor.
e agora, pela mão dela, de novo, a vida.
“ fechar os olhos, erguer os braços e dizer-lhe “vou contigo.”. isto é claridade, melodia. duas mãos dadas. a parte de dentro e de fora da laranja. (...) parou. abriu subitamente os olhos e compreendeu. então, olhando em redor, pensou: onde quer que estejas, obrigada. jamais te esquecerei. ”