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sexta-feira, setembro 19, 2008

"pai"




"i miss you

i guess that i should"


(counting crows, raining in baltimore)





..



morning becomes dark and empty

as i wake up to the day

to find the scratched hands and words

that have lost you along the way



would you have stayed if i'd dreamt harder?

could you have had another try?


in dreams reality is kind

and pain no more than a sigh





..













today only i will be a child

with no possible time-lapse

no shame or masked fears




- i miss you always beyond this silence


this trail of memories


this blood of tears
















...








("day comes up sicker than a cat
something's wrong that is that

mr. somewhere missing somewhere
never did figure just how much


a boat from the river takes you out
'cross the other side of town, to get out, to get out
you take the tide, any tide, any tide
like there isn't gonna be any tide

mr. somewhere missing somewhere
never did figure just how much

missing somewhere
never did figure just how much


a world like tomorrow wears things out
it's hard enough to get what's yours for now
and the hardest words are spoken softly
softly look, no hands upon

nr. somewhere missing somewhere
never did figure just how much

missing somewhere
never did figure just how much


now the milkman beats you to the door
that was once a home, home no more

mr. somewhere, missing somewhere
couldn't get the calendar to stop

missing somewhere,
never did figure just how much

missing somewhere,
never will admit just how much ")









..











(imagem de ana nicolau, @ musée du louvre)

sexta-feira, setembro 05, 2008

(n)a dor de alice











.

suicide watch
is an intensive monitoring process used to ensure that an individual does not commit suicide.

.









..











eu estava sentada a seu lado, um lugar de sofá no meio das duas, a minha mão a transpô-lo, pousada sobre o seu ombro, fazendo festas até onde chegavam meus dedos, querendo quase entrar por sua pele para chegar dentro, fundo onde lhe gritavam as vozes que não ouvia eu, que não ouvia ninguém senão ela, que lhe ensurdeciam o falar e lhe emudeciam o ouvir;
e por isso o toque, o tentar do toque, o toque desesperado por chegar dentro, dentro até que minhas mãos tapassem a boca a essas vozes injustas e mentirosas que empurravam aquela alice de cabelo de fogo para o buraco mais fundo de si,
longe de tudo,
de todos,
longe de tudo o que é
vida
na vida.



















" you see..




i wasn't supposed to be alive by friday......"
























disse-mo em murmúrio,

como quem fala do que é certo,

sem caminho de regresso.





um segredo que me confiava como quem confia tudo.






















e eu tive vertigens de sua morte planeada.



































...








falava-me por entre os soluços que lhe rasgavam o respirar,
sem nada mais que não o negro da côr imensa de si, esse escuro de facas afiadas e comprimidos engolidos por anos de injustiça, desamor, desconsolo.


e eu pensei
pensei
que não é justo.


a balança a tornar-se mais e mais desigual a cada dia
e nós sem saber, sem saber o peso de cada hora.

o peso de não saber-se de si.

de perder-se,
deixar de ser-se
esse tudo
que se é.


e tão fácil, a queda.....












frente a meus olhos caía, e eu sabia que ela caía de olhos fechados, cerrados como punhos, e assim se deixava ir, sem responder a ninguém, sem levantar a cabeça para olhar-nos, já, sequer, nada de si senão aquele corpo de menina por si mesma abandonada e aquele choro angustiante, sufocante, sumido,
a contaminar-me o sangue de tristeza e revolta.


inadmissivel não pegar nas mãos de quem nelas segura seu próprio presente e levantá-las até que veja, saiba, sinta tudo o que é, pode ser, sempre, a cada dia, cada minuto, ainda, sempre, a vida.


querer abaná-la e dizer pára, pára as vozes, pára tudo o que te atormenta, mergulha para fora de ti se preciso for que te agarramos, nós agarramos-te,
só não vás.
não assim.
não antes de tanto de ti.


mas ela menina, enrolada em si mesma,
pequenina pequenina,
pequenina de medo e tão adulta de dor...




medo de quebrá-la, quase...
cuidar como se,
porque,
pássaro de asas partidas.
alimentar.
ser guarida.
dar descanso.
sem paredes brancas, médicos ou vozes estranhas.
sem o medo de nada.
sem o nada lá fora.
sem curso de nada para além do sentir.
nada senão cada momento.
agora.



na quietude da noite dormiu como quem se entrega ao descanso dos braços de uma casa, amigo, porto de abrigo.

na luz meiga do dia pegou-me pela mão e levou-me por seu labirinto de árvores entrelaçadas em nós enferrujados de memórias escuras e flores murchas de seu próprio abandono,
e pelo enevoado do medo consegui ver que olhava ainda para cá.
para nós.
dentro.
olhava.


falei-lhe das luzes que alumiam o dia,
das velas que se apagam para que possa vir a noite que descansa, apazigua, ameniza, serena...


deixa que venha a noite, serena.

que te seja sereno o dia.

todos os dias.

deixa...











o que se pensa é só isso,


um pensar.







a vida toda é um pôr-do-sol




uma mão dada no escuro




o mar.














..










(imagem de john tenniel)

sexta-feira, agosto 15, 2008

(meu) país de gente e mar










" Tudo me prende à terra onde me dei:
o rio subitamente adolescente,
a luz tropeçando nas esquinas,
as areias onde ardi impaciente.


Tudo me prende do mesmo triste amor
que há em saber que a vida pouco dura,
e nela ponho a esperança e o calor
de uns dedos com restos de ternura.


Dizem que há outros céus e outras luas
e outros olhos densos de alegria,
mas eu sou destas casas, destas ruas,
deste amor a escorrer melancolia. "


(eugénio de andrade, canção breve)

















...











vejo o caminho.





sei-o inteiro, e sei onde vai dar.



a que mar de terra e gente minhas.








medo da vergonha?


vergonha do medo?






o mesmo tremer do frio de entrar no mar
- a vida toda em desejo suspenso
no tempo esperado de meu mergulhar.





mais que rainhas e príncipes
trago na mala as fadas que me sabem as asas
em certeza, dignidade de sentir.



sou todos os que enterrei,
todos os que em mim nasceram
- tatuadas sementes de meu chegar e partir.








.










ouço(-me) no vento.


como se meu o nome que alguém.



como um chamar sonho à vida
que ninguém mais
ninguém mais
tem.
























...














agora,

longe e perto,

tenta-se a humildade:














vive-se.
















.
















(imagem primeira: ana nicolau, autoretrato2007
imagem segunda: eduardo gageiro
imagem última: haleh bryan, dani-blue)



quinta-feira, junho 12, 2008

366 dias












" onde estás, pai, que me deixaste só a gritar onde estás? na angústia, preciso ouvir, preciso que me estendas a mão. e nunca mais nunca mais. pai. dorme, pequenino, que foste tanto. e espeta-se-me no peito nunca mais te poder ouvir ver tocar. pai, onde estiveres, dorme agora. menino. eras um pouco muito de mim. descansa, pai. ficou o teu sorriso no que não esqueço, ficaste todo em mim. pai. nunca esquecerei. " *







(ascending angel, kira perov**)











..












(* josé luis peixoto, in "morreste-me"
**da instalação five angels for the millennium, de bill viola)

segunda-feira, maio 12, 2008

(in (between) life and dreams)








" so runs my dream, but what am i?

an infant crying in the night

an infant crying for the light

and with no language but a cry. "



(do poema "in memoriam a.h.h.", de alfred lord tennyson)






































...








guardo preso
engasgado
em luto de lembrança

o peso timbrado da vida doente
- essa toda irrealidade
de teus momentos finais
































...









assombra-me a saudade.











sufoca-me

o nunca mais.





















(imagem primeira: youth mourning, george clausen
imagem última:death in the the sickroom, edvard munch)


sexta-feira, abril 25, 2008

SEMPRE.









a poesia





o povo






a justiça







a liberdade





(vieira da silva)


















(como para sempre
hoje
a lembrança
a saudade
o orgulho
de meu pai.)

sábado, abril 12, 2008

(in) memoriam








" a gente não vai para o céu.










é o oposto:

o céu é que nos entra, pulmões adentro.















a pessoa morre é engasgada em nuvem. "


(mia couto)








































...








quarta-feira, março 12, 2008

the (w)hole of 9 months



















looking heavenward you cannot help but shed a tear... mournful... lonesome... a hole that screams out almost as loudly as the roar of the engines that pass overhead.







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this is
the missing man formation, whether flown with the wingman spiraling off into the great beyond, or flown consistently with that awful hole where a buddy should be *














...











missing.











(so much) more





than i






can say.















@-,-'-







* tirado daqui

segunda-feira, março 03, 2008

(neste meu) 3 de março

em saudade(s).










peterborough, 30.novembro.07




para além do vazio deste dia distante
injusto
irreal
meu corpo arranha a memória de tudo
as memórias todas
em fúria cega de reavivar-te
ser criança contigo
ver-te ser tudo o que é incerto
pedir-te que faças de tudo isto mentira


(...)


e isto custar-me tanto,
custar-nos tanto,
ser-nos tão fundo a tua morte,
ser tudo tão estúpido,
de repente,
tudo tão sem razão de nenhum sentir....



no pouco que nos sabíamos,
para além do que.






(...)










suspensa.





entre zanga de morte

e certeza de vida.







..











e esta vontade



amputada



de te ouvir rir,








memória ida






em teus olhos






















para sempre




























fechados.























...

















(sendo eu sempre
neste dia de hoje
essa saudade
de (já...) 15 anos,
tempo demais em teu nunca-regresso.
)












(imagem: la muerte de casagemas, pablo picasso)

terça-feira, fevereiro 12, 2008

saudade e.





























...











há dias em que poderia












simplesmente















chorar-te.






sábado, janeiro 12, 2008

ano novo. (em) diário.






lisboa, 28 de dezembro de 2007



é natal e eu sou menina,
em minha terra de vida e força do que me é tudo.
porque a mim me sou nesta cidade de paz e confiança, sem máscaras, chuva negra, não-mar.


é natal e sou menina.
como quando meus todos avós eram vida, e nessa casa cheia de risos o natal era gente tanta. viva.


é natal e eu sou menina em minha terra de mar.
ando como nuvem, eco contínuo de paz, como se um enorme espanta-espíritos, em sons de lisboa, me guiasse o tom dos passos.

os sorrisos são abertos, são-me tudo, e há em cada corpo que aperto o sentir da vida que sou, a que regresso sempre, aqui, como se nunca (a) partida.

dos olhos de minhas novas infâncias bebo o saber de quem sabe nada e nada teme, e tem como seu-tudo o riso, o riso que enche de vida o espaço de quem esteja, que por sobre o presente nos embala o futuro em alegria criança. de existir.

é natal e sou menina.
com(o) eles.
neste todo tudo que lhes tenho, este sentir mais limpo de toda a vida.
mais do que.
tudo.


é natal em minha terra de sol.
conheço gente que me não conhecia, mesmo se tanto, já, entre nós, e o perto que somos tem o carimbo do amor a nossas raízes, também, das mãos que agarram a terra e a apertam até que se entranhe, até que seja tão verdade quanto o sangue que bebemos dos lábios que não beijamos nunca, e serão sempre desejo de outra vida, aventura (in)imaginável do que um dia, se.

evito os olhos que poderão prender (essa tão má tradução de nosso cativar...) e devolvo os meus ao mar, para que os renove, me tome, possua, me refaça,
menina,
uma outra vez.

visito lugares do passado, onde fui (essa) menina e tudo me era enorme, naquele quarto com malas e malas e mais malas e mais, côres de brilho e vida com que brincávamos a tantas mãos, quartos escuros de pó e recordações, vidas, vidas, onde entrávamos à descoberta de um passado que não sabíamos explicar, indecifrável magia de nosso brincar, o quarto dessa bailarina formosa, generosa, dança e vôo em palco de vida, que não saberia nunca que um dia nos choraria, antes demais, o tempo - este vazio de espaço dentro nos lugares em que faltará sempre mais que uma presença.
porque há dias em que poderia simplesmente chorar(-te), meu missing man.

.


sou presença nos amigos, alguns de há tanto, tanto tempo que quase nos não lembramos já da vida sem. e faço, (re)conheço novos, sei que juntos criaremos, nasceremos (em) momentos de partilha e sorriso, olhares que começam a saber ver-se e. como se espelho, realmente, o que.

juntamo-nos, gentes agora distantes, e somos um outra vez, nós, grupo de tantas histórias, tantos momentos, partilhados viveres de uma vida só.
a todos abraço forte, forte muito, porque o tempo escasseia e nós sabemos,
sabemos,
que a vida não é nossa para saber o amanhã.
vivemos hoje o que somos,
e juntos,
juntos,
somos força de amizade
em riso e noite
de lua e de nós.










natal.
eu menina, sentada em frente a este mar que me fala dentro e mistura em sua voz o marulhar das vozes morridas, (e)terna presença em meu espelho de olhar.


é natal e eu sou menina.

é natal em meus país de mar.










..









....










é como um (re)acordar....
regressada da cidade de mim,
que me viu nascer
e fez
- faz -
crescer,
acordo em quem sou com tamanho sentir que poderia chorar a cada passo que dou,
cada cheiro que (re)lembro,
cada enlace que guardo dentro,
marulhado de sonho (d)e vida.




que este ano
de imensos dias,
vos seja o viver de um dia,
um momento,
um sorrir,
sempre,
de cada vez.

a todos vocês
que me acordam (a)o sentir.

e a todos os que
sem o saber
no-lo fazem.
diariamente.






























" we are the music makers




and we are the dreamers of dreams. "
*








..





lembremo-lo.


a cada dia de nós.







* do poema Ode, de arthur o'shaughnessy
(imagens: traveler 48 at night, snowglobe, de walter martin e paloma muñoz
m.l.f., praia de carcavelos, dezembro.2007)

quarta-feira, dezembro 12, 2007

saías de uma casa onde eu estava também.


choravas.


não me vias
- talvez a ninguém -
e choravas.


como que perdido.


menino, de novo.


como quando.




e falavas sozinho.



que tua mãe te tinha dito
antes de morreres
- como se vida, ela, embora então





eu depois vou buscar-te a uma lua qualquer.








...










logo a seguir o alarme acordou-me do sonho

e o choro brusco da presença de ti.
























(
the girl comprehending infinity on a red chair, de bogdan zwir)








...













a rita foi a primeira.
a descoberta de uma nova dimensão de sentir
que nunca antes.


graças a ela
acredito
a avó que era luz de mãe viveu mais a alegria em seu tempo de fim.





depois veio o diogo
- o primeiro rapaz.


graças a ele
(com a rita)
acredito
vivemos mais serenamente a saudade de minha avó.





a sara veio quando o pesadelo estava para começar.
de verdade.
em verdade.


graças a ela
(com o diogo
e a rita)
acredito
viveu nosso missing man, também, tão mais do que se não.



por eles, os últimos
mais fundos
sorrisos.




...



" a brand new baby was born yesterday
just in time





papa cried, baby cried
said "your tears are like mine"







i heard some words
from a friend on the phone
that didn't sound so good





the doctor gave him two weeks to live
- i'd give him more
if i could













you know that i would now










if only i could










you know that i would now










if only i could
















passaram-se

6 meses.


todo esse tempo
incalculável
insuperável
inaceitável
desde um último
teu
respirar.




e no entanto,

no entanto,

no meio desse tempo,
há 18 ontens atrás,
com a força do sangue que lhe vive nas veias,
respirou o tiago
connosco
pela primeira vez
.


..



com ele

(e a rita
e o diogo
e a sara...)

acredito
- acredito -
que.














down the middle drops one more
grain of sand





they say that
new life makes losing life easier to understand







words are kind
they help ease the mind
- i'll miss my old friend





and though you gotta go
we'll keep a piece of your soul




- one goes out,

















one comes in











you know that i would now










if only i could










you know that i would now










if only i could "









.














e lembro
lembro
estas palavras
em meus ouvidos
ao passar as portas
- tantas vezes
tantas portas -
do hospital.












que sonhava abertas






para ti.

















(if only i could)
































(eleventh hour, de felicity rogers)










..









persistes.







vives.









dentro.

segunda-feira, novembro 12, 2007

silêncio calado








" tenho saudade de meu pai.











..










tenho saudade de tudo. "
*



























..






* do filme central do brasil, de walter salles

(imagem de bogdan zwir)

terça-feira, outubro 30, 2007

esperança (d)e vida










anoitece.











....












é cedo

e anoitece.








....



























(brian wiles, dawn)









há vozes que me chamam e falam mais que a minha língua...



vêm de todos os lados
e são como vidas que me trazem a vida,
me lembram a doçura da humanidade fugaz,
me fazem acreditar que é sempre possível ser-se melhor...



(assim sorrimos de tudo
frente a um arco-íris chovido que invade a cidade cinzenta,
uma lua cheia que respira todo um campo de folhas sonhadas, caídas em côr,
um sol que nu e vermelho mergulha em água e sal de mar...

assim nós.
como quem olha a vida nos olhos e vê para além dela.

..

para além do que.)




aceitar quem dói,
aceitar a ausência,
aceitar escolhas e escolher
escolher
sorrir sobre tudo.

..

sobretudo sorrir.



ser verdadeira ao olhar que procura, deixar que entre nos olhos, por pouco que seja,
que entre, se sente à beira, como se.
deixar-se invadir pelas palavras que tocam,
levam o pensar sem que se pense,
fazem voar de intimidade a desconhecida distância.
hesitar, ainda, na entrega da verdade,
em verdade,
a entrega antes da paz, dentro,
porque não-paz esta serenidade que o não é,
porque não-completa, inteira,
ainda...
mas deixar,
deixar que os olhos.
beber das palavras, saborear-lhes o toque,
em segredo.
deixar que confortem
e possam ser
a vida
que se faz.



acordar a cada dia e sorrir,
sorrir só,
sorrir com,
em alegria de vida.

pela vida.

na vida.





e assim
ser
cada segundo.















...













isto
assim,
neste preto e branco de côr,
vejo eu,
faço por,
quando olho em frente.

comigo,
em mim,
na travessia do presente.

com tudo o que (não) ficou para trás.

..


ainda se sente.










...





assim eu,
no mundo,
em sal de saudade,
vida e verdade.


assim eu,
em mim,
em teimoso renascer
- como quem refaz e relembra
a cada noite
o amanhecer.

































































(imagem de bogdan zwir)





























" os desejos mais puros e ardentes do coração
são sempre realizados. "


(mohandas k. ghandi, in
"a minha vida e as minhas experiências com a verdade")

sexta-feira, outubro 12, 2007

embalo (s)em meu pai

tudo da vida,
então,

ainda
e tanto

dentro.





















(clicar aqui para versão youtube)





(embalo (s)em meu pai com imagens de ana nicolau, IgaNinja, kyle houston cummings, guayasamin, dale wicks, graça morais, peter kozikowski, hau maru e antoine de saint-exupéry
imagens "esperando" e "máscara" de autores desconhecidos
poema "a pequena praça" de sophia de mello breyner andresen, por luis miguel cintra
música de javier navarrete, do filme "el laberinto del fauno")

terça-feira, setembro 18, 2007

por sempre. para sempre.






















“ tenho uma amiga que me conhece para além do tempo. para além de tudo.
tem olhos de céu, sorriso côr de criança e a vida a nascer-lhe das palavras.
com ela, por ela, escolhi, reaprendi essa vida, a vida viva, essa de dádiva e abraços, há 14 anos atrás.

tenho uma amiga que me conhece para além de mim. para além do que.
olha-me nos olhos e eu sei que posso ser verdade, sei que quero ser vida, que preciso ser eu.
com ela, nela, a dor e a morte são derrotadas.
por ela, a coragem da vida renasceu. ”

(lisboa, 18.07.07)


...


no ano de ’93, sem que nos conhecêssemos ou soubéssemos quão perto estavámos, já, quão enleadas nossas vidas se tornavam, flechinha e eu vivíamos sentires semelhantes, inigualáveis de dor e espanto, incompreensíveis por todos os que não os sofriam, ali, connosco, nós adolescentes atordidas de realidade e adulthood, sem aviso ou trégua possível.

quando nos conhecemos, quando primeiro falámos e nos sorrimos de e em vida, apesar de tudo o que, passava um mês exacto sobre dessa data que nunca ouvirei ou sentirei de maneira quotidiana, nunca será confundida com nenhuma outra, nunca fará parte de um calendário normal, como se viessem todos com defeito de fabrico, como a vida, essa, todos com esse dia assinalado a dor.
eu tinha já feridas abertas que não entendia mas me ardiam, lágrimas com sabor a morte, um viver que eu desconhecia e não sabia sentir.
ela vivia o pesadelo dos dias que traziam a incerteza da certeza do medo do amanhã.

lambemos feridas juntas, trocámos vidas e lembranças desses dias de desespero e confusão, tantas e tantas vezes, tantas e tantas noites de palavras e lágrimas e partilha de tudo o que éramos, queríamos ser, e o que não sabíamos que era em nós, também. fomos dúvida do presente agarradas ao passado, mas fomos juntas, passo a passo, em direcção a qualquer coisa que existia, devia existir, lá mais à frente - flechinha com todo o amor, força e uma recusa quase teimosa em ver-me desistir do que fosse em mim.
porque eu, eu afundei-me na dor não-prevista e injusta da morte de quem tanto vivia e mais queria viver.
eu quis afundar-me nos dias, ser sombra, ser não-vida. recusar-me ao viver em jeito de protesto. e quando me recusei a sair de lisboa porque o corpo de quem, mesmo se morto, era aqui que morava, aqui condenado a ficar para sempre, quando disse não ao viajar para qualquer sítio que me tirasse desta cidade, que me tirasse da proximidade do seu corpo, porque isso pelo menos – acreditava eu – existia ainda, e me parecia tão injusto, tão terrível aquilo que eu via como abandono, flechinha, em meiguice e impenetrável amizade, estendeu-me a mão e puxou-me à vida. quando ninguém mais, eu culpada, o pôde fazer.
durante meses a fio, esteve a meu lado, até eu voltar a saber ter e viver o peso do que era em mim própria, sem refúgios, fugas ou abandono de mim.


para além da distância que a vida sabe e pode trazer, soubemos ter-nos sempre dentro, por maior o longe fora, por maior o mundo em muro entre nós: eu sabia, soube sempre, que no momento do precisar a vida não me faltaria. porque ela.


quando emigrei, o conforto de sabê-la na mesma terra.
ela que me precisava, também, tanto, mas que apesar disso, quando lhe confessava o choro, quando me doía o medo e o peso da fraqueza da saudade, me dizia “se não és feliz, se assim, aqui, não consegues ser força na felicidade, vai. volta. volta para longe de mim, mas fica perto do que te faz força e te é dentro.”
...
fiquei. com a sua força na minha, também.
fui ficando até voltar,
voltando até ficar.


aquando do início do pesadelo, no ano passado, embrulhou-me a amizade em presente – ela que tanto poderia ter-se “desumanizado”, por tudo o que, nesse ano – e tentou, da única forma (im)possível, proteger-me do futuro que já tinha vivido.
esteve comigo, a meu lado, sentada na cadeira que não existia naquele quarto de hospital que não sei já se existiu, também, de manhã à noite, e madrugada fora, flechinha esteve comigo a cada instante de espera, ânsia e recusa do amanhã, tanto e tão mais do que outros, “perto”...
e nunca
nunca
me abandonou em mim.
a ela, só a ela, confessei – nesses dias de desmesurado nada - a fraqueza sob o peso que não queria admitir a ninguém mais. mesmo se. porque.
- não aguento mais. é como que lhe paro o sofrimento?, é como que se vive isto?......
e ela, a meu lado, a vivê-lo comigo, a sofrer comigo, sem nunca, nunca, me largar a mão ou a vida.


...

e agora,
agora,
ontem ainda,
no carinho e calor de uma casa de tanto e tão bonito, tão sentido amor, flechinha e sua metade a “convidar”em-me a ser madrinha do novo ramo de sua árvore de vida.
godmother lhe chamam na terra onde vivemos nós.
...
e assim, pela mão de flechinha, como tanto mais, antes, me torno mother pela primeira vez.
e nem sei dizer do orgulho que me traz lágrimas à voz e este sorriso de sentir aos olhos por ser um filho seu, vindo dessa união de tanto tudo, que me é tão dentro, que faz querer chorar de feliz, eu simples visita nessa casa de amor.
e penso, sei, que não poderia ser de outra maneira. de outra pessoa, antes de.

porque nela a força.
nela o apoio.
o exemplo de coragem,
não-entrega ao que tenta
e faz por
vergar e quebrar.
nela o amor.

e agora,
pela mão dela,
de novo,
a vida.







“ fechar os olhos, erguer os braços e dizer-lhe “vou contigo.”. isto é claridade, melodia. duas mãos dadas. a parte de dentro e de fora da laranja.
(...)
parou. abriu subitamente os olhos e compreendeu. então, olhando em redor, pensou: onde quer que estejas, obrigada. jamais te esquecerei. ”

(do livro que me deste há quase 11 anos...)



...




obrigada a ti.

pela vida.

fixed.




(imagem: (e)terno abraço, retirada daqui)

quarta-feira, setembro 12, 2007

mo(u)rning
















"they told me, heraclitus, they told me you were dead
they brought me bitter news to hear and bitter tears to shed.
i wept as i remembered how often you and i
had tired the sun with talking and sent him down the sky.

and now that thou art lying,my dear old carian guest,
a handful of grey ashes, long, long ago at rest,
still are thy pleasant voices, thy nightingales, awake;
for death, he taketh all, but them he cannot take. "


(william cory)



























(cada dia
quero mais
ter-te-nos
(re)conhecido
antes.























.....


























tanto.)

terça-feira, setembro 04, 2007

a clockwork life





















o tempo voltou a si.

deixámos já aquela espiral de um querer
de não querer
que chegasse o amanhã.

ficou algures a eternidade da espera, em pé
- o formigueiro no corpo e na alma -,
sem saber se esse amanhã chegaria
ou se já nele vivíamos.

para sempre.





agora resta só a memória confusa desse tempo morto
que nos assombra lembranças e vida.

como se tudo tivesse sido só um sonho mau
- tão indescritivelmente mau... -
que parece ter sido e passado.



..




sim, esse tempo (já) passou...

sabêmo-lo.

por mais que nunca.


























e voltou a si...


o tempo
voltou
a si.





em segredo e de mansinho,
na vergonha de voltar sem ti.


























.












(primeira imagem: close-up clockwork, de konstantin inozemtsev.
segunda imagem retirada de www.kenora.net/watches/)

quarta-feira, agosto 29, 2007

olhares (d)e marulhos: fim.de.semana.

sexta-feira:
mudança


fora





























dentro





à volta.
em tudo.























sábado:
regresso ao futuro


de autocarro
em turismo e self-discovery
pela minha londres























































a pé
em mim
pela sua
minha
camden













































e neste seu velho
- meu novo -
espaço e canto de mim.





























domingo:
calma e conforto


dados
























recebidos
























































e partilhados.

















no fim
do fim
da semana,
da flor apanhada do chão
no seu início
- assim largada
sem vento ou cuidado,
guardada com(o) lembrança
num caderno que não olha o passado -,
este (re)nascimento,
em água acarinhado:

domingo, agosto 12, 2007

on a day like today

penso-te muitas vezes.

sem notar - assim mesmo, sem por isso dar -, chega-me a tua imagem.
vinda por vezes do nada.
vinda sempre de mim.

entristeço-me:
é quase sempre a imagem da doença em ti.
da imobilidade, tristeza, tuas.
da impotência, (essa outra) tristeza, nossas.
de quem.

às vezes dou por mim de volta àquele último quarto de hospital,
onde ao absurdo se chamava medo,
o medo escondia a esperança
e a esperança chorava a vida.

lavávamos os sentidos de nós e de tudo o que não fosses tu,
lavávamo-nos com força de ferida para sermos inteiros,
ali.
como tu já não podias
já não sabias
ser.

olhávamos as molduras sem tempo nenhum
- entre nós e o passado que se queria futuro havia,
há-de haver sempre,
o esvair do sorriso,
o desenhar da dor,
o não-saber quem, como, seremos depois de te (vi)vermos assim.



....






























....




não sei quanto tempo vai durar esta estranheza que umas vezes é luto, outras memória, outras só um confuso não-perceber, ainda, como que um não-aceitar, ainda, ainda, a realidade.
a que.

é-me irreal,
ainda,
tudo.
por mais real a tua paz.


.





passo em londres, por entre sítios de amizade, e sinto, noto que há coisas que mudaram para sempre.
agora lembro-te em londres.
e londres lembra-me de ti.

a baker street - a rua em si, não o seu nome - já não é a rua do sherlock holmes.
a baker street é agora a rua perto do "teu" hospital.
é a rua perto dessa outra, transversal, onde vim apanhar ar, tentar respirar qualquer coisa, quando.
onde me recusei ao fim da esperança, como me recuso agora ao resto, se calhar, recusei aceitar esse fim marcado para a vida, como se me não fizesse sequer sentido a fala daquele homem de pele escura e bonita vestido de roupa clara e vazia, aquelas palavras cruéis, pontiagudas, dilacerantes, de tão certas de si mesmas. como se no recolher o choro pelos outros recolhesse a minha própria dor, eu impotente, eu nada, sentada naquele chão daquele passeio daquela rua, um criminoso cúmplice de tudo com sabor a mentol numa mão, a voz de todos os que ficaram, nessa noite, escolheram ficar, quiseram amar, na outra, naquela rua que dantes, dantes, ia dar à rua do sherlock holmes.
agora não é mais que uma transversal de dor que vai dar ao hospital onde, antes de, deitado nessa (outra) cama de lençóis timbrados, sorrias, fazias piadas, eras tu mesmo, esperando a esperança com o medo sentado ao colo.
e por mais que quiséssemos, que tudo tivéssemos feito para reparti-lo, o peso do teu medo era, será sempre, incompreensível para nós, nós todos que não sabemos o que é o temor
verdadeiro e inesperado
da (im)previsivel morte.

e assim essa palavra se apagou de qualquer conversa.
e é bonito, quase, como mesmo os médicos nos falam sempre de esperança de vida...
quando o que se espera, o que se teme, o que se chora a sós, à noite, no escuro, longe dos olhos e ouvidos dos outros, acima de tudo longe da vergonha de o pensarmos, sabermos, já, dentro, nós... é a morte.

para além dela,
só a vida.

dentro dela,
toda a vida.

depois dela...
nós.

vazios.
irmãos.
contigo.
dentro.
em vida.
nevertheless.

..


sempre.















(e agora, meu missing man, o que eu queria, queria muito, era sorrir-te. agora. confortar-te do que fosse. tratar de ti. ouvir-te a voz, ser tua amiga, como se.
por mais breve o momento.
por maior o sonho.
só porque sim.

agora.)