quarta-feira, junho 25, 2008

"the power of now"






" menino doido, olhei em roda, e vi-me
fechado e só na grande sala escura.
(abrir a porta, além de ser um crime,
era impossível para a minha altura...)

como passar o tempo?... e diverti-me
desta maneira trágica e segura:
pegando em mim, rasguei-me, abri, parti-me,
desfiz trapos, arames, serradura...

ah, meu menino histérico e precoce!
tu, sim! que tens mãos trágicas de posse,
e tens a inquietação da Descoberta!

o menino, por fim, tombou cansado;
o seu boneco aí jaz esfarelado...
e eu acho, nem sei como, a porta aberta! "*

















..






sei-me quem sou.


liberto-me.













assim.












..










(*"libertação", de josé régio
"do amor que não (imagens de um sentir)": fotografias nomeadas com/por seus autores no slideshow
frase última de cecília meireles)



























(" aprendi com a primavera a deixar-me cortar,
para poder voltar sempre inteira. ")


quarta-feira, junho 18, 2008

self-reminder (in advance)










" paston common, 5.maio.08 - "livre balanço"



a mim me trouxe aqui.
foram sete, já quase sete anos, de emoções que baralham, confortam, seguram, baralham, levam avante, carregam, fazem temer, seguram, baralham, seguram, baralham.
que aqui me trouxeram, em mim. com(o) a vontade de mais.


.




é lindíssimo, este momento de tempo em que estou. esta vida que vivo agora.
de acreditar, saber, o que. que sou feliz. sou (já) feliz. por muito e tanto. por tudo o que é em mim.



(it's beautiful here, this moment in time.
as i close my eyes, the birds lull me to the truth in me:
i am part of nature.
i
am the birds.
i am the trees.
i am the sea.)




vivo a vida que sei.
a que me trouxe eu.
que abro os olhos e conquisto e recebo
o que é, por vontade, meu. "












..








(imagem primeira:do you believe it in your head, de michael vesen
imagem segunda: integration of the soul.
de autor desconhecido,
sadly..)

quinta-feira, junho 12, 2008

366 dias












" onde estás, pai, que me deixaste só a gritar onde estás? na angústia, preciso ouvir, preciso que me estendas a mão. e nunca mais nunca mais. pai. dorme, pequenino, que foste tanto. e espeta-se-me no peito nunca mais te poder ouvir ver tocar. pai, onde estiveres, dorme agora. menino. eras um pouco muito de mim. descansa, pai. ficou o teu sorriso no que não esqueço, ficaste todo em mim. pai. nunca esquecerei. " *







(ascending angel, kira perov**)











..












(* josé luis peixoto, in "morreste-me"
**da instalação five angels for the millennium, de bill viola)

terça-feira, junho 03, 2008



" amor, vi morrer a flor.
eu que trago água nos pulmões.

*

o vento ousa nos teus cabelos,
esforço-me por segurar a última folha. "

(paulo josé miranda)


































(haleh bryan, full moon)









..






deixei-te falar por entre o incenso da mágoa,
cada minuto uma nuvem,
cada palavra a cegar-nos o céu de olhar

- a vida presente a escolher ser livre,
o toque do tempo o verdadeiro amar.




lá longe onde lutas a vida,
o passado não te é raiz de pensar
de pesar
de não ser nunca mais pele o respirar.




...





e então falei-te
devagar
sem nada dizer.


ouvi cada bocadinho de céu,
de olhos fechados e não,
e disse-te


" há nuvens.


há nuvens
mas não há-de chover. "


.



olhei cada palavra tua nos olhos
com a paz inquieta que me trouxe o saber, saber,
para além das noites que te sonham ainda,
que nunca, nunca haverá um espaço
um tempo
um querer
de nós.


a chuva deixou há muito de molhar-nos desejo ou lábios
- não há já
nem mesmo na chuva
esperança ou verdade
para um nosso amor.

e no entanto,
no entanto,
a dor-verdade, ainda, na alma da memória tua...

o coração que se encolhe a cada palavra,
o respirar que me aperta contra minha vontade,
contra a tua,
contra a de toda essa gente
que não esquece.

porque se não esquece
afinal.

nem mesmo quando.


.




ouço-te
assim
(em) meu adeus.


parto
eu
"antes mesmo
de partires".


parto nas tuas palavras
sem que o saibas
sem que o notes
sem que me sintas partir.


pelo muito
que há tanto
deixaste de saber em mim.





..











e chove.


afinal chove...


como quem lava novos caminhos.



































..




(" one two three four
tell me that you love me more
sleepless long nights
that is who my youth was for

old teenage hopes are alive at your door
left you with nothing but they want some more

oh, you're changing your heart
oh, you know who you are

sweetheart bitterheart now i can tell you apart
cosy and cold, put the horse before the cart

those teenage hopes who have tears in their eyes
too scared to own up to one little lie

oh, you're changing your heart
oh, you know who you are

one, two, three, four, five, six, nine or ten
money can't buy you back the love that you had
then


..


one, two, three, four, five, six, nine or ten
money can't buy you back the love that you had
then

oh, you're changing your heart
oh, you know who you are
oh, you're changing your heart
oh, you know who you are
oh, who you are

for the teenage boys
they're breaking your heart
for the teenage boys
they're breaking your heart ")


quarta-feira, maio 21, 2008

nos três anos destes marulhos...




um só humilde obrigada a todos vocês
que me lêem,
me partilham o viver.


convosco,
sigo a crescer.


em vossas palavras,
o cheiro a maresia
do sentir.


..



do ser.

















obrigada.


(for) so much more than you'd imagine...














(e a todos de quem não tenho imagens, e todos os outros que me lêem, me sentem, me guardam em si, em força e silêncio. @-,-'-)

segunda-feira, maio 19, 2008

(d)escrita(,) despida
















(leaving the storm behind, haleh bryan)






em blog de gente (des)conhecida que (me) escreve e emociona o viver,
"comento" em continuar de sentir,
como se minhas também as palavras suas.

que leio devagar,
cada palavra calcando,
marejando de olhar e saudade,
toda a memória vivida
- esse imenso não-futuro que me algema à verdade.




..



"comento".
como se personagem de seu sentir, também, eu.
tão e só.
nada mais.
nada de mim.





























(mistakes, haleh bryan)









.....








mas as palavras que desenho escrevem quem sou
com a azul precisão de quem marulha um choro.


sem minha própria intenção.


eu que seguro ainda
- sem qualquer um enrolar de regresso -
meu novelo de pontas tantas de sentir.






em nenhuma delas o inventar a côr
no bordar de um berço de paz.

em nenhum momento
o sonho ou desejo
de chorar um caminho,
remar sobre a dor,
voltar atrás.




..






e ainda assim

as palavras,


vestígio(s) de enlace de pele:


















é onde que mergulho de novo
fundo
nos teus olhos?
























parece que me afogo...













































(after never, haleh bryan)


segunda-feira, maio 12, 2008

(in (between) life and dreams)








" so runs my dream, but what am i?

an infant crying in the night

an infant crying for the light

and with no language but a cry. "



(do poema "in memoriam a.h.h.", de alfred lord tennyson)






































...








guardo preso
engasgado
em luto de lembrança

o peso timbrado da vida doente
- essa toda irrealidade
de teus momentos finais
































...









assombra-me a saudade.











sufoca-me

o nunca mais.





















(imagem primeira: youth mourning, george clausen
imagem última:death in the the sickroom, edvard munch)


domingo, maio 04, 2008

a minha avó, em dia de mãe(s)





é dia de mães em minha terra de mar....



dia de sentir.

de ser menina e olhar para ela.
de ser mulher e por ela olhar.






..






e eu já descobri, sabes?
nesta distante lonjura em que és tanto parte do que sou a cada dia, cada desafio, cada conquista de mim, eu descobri já, avó
- eu descobri já quem sou.

e sei agora quem me é.
quem me vive no sangue.
em verdade.
com verdade.
(para) sempre.


sei saber por fim a força da família, nossa família, nossa coragem de justiça e carinho
- essa tribo de apoio e sentir
e de mães tantas
que não só de seus filhos.

sabes?.....

sim, tu sabes.
tu sabes mais ainda agora do que o tanto que soubeste sempre.

e sabes tudo de mim.


como cresci, eu.........


fiz-me mulher, avó.

aqui cheguei menina
e daqui saio mulher.


e agora, agora, assim nos reconhecemos.
eu e ela.
eu e tua filha.
eu e minha mãe.
em amor, camaradagem, amizade.


ela, sim, que é grande.
enorme.

tanto que se torna pequena para deixar passar a felicidade de quem.

tanto que me não embala o choro;
minha mãe não me embala o choro que é sofrer teimoso...

..


combate-o.

minha mãe luta meus sentimentos por mim.

até me chegar a força que sou - que vem de ti, e dela, e de minha mãe de céu, e de, e de, e de.... -, minha mãe é quem me enfrenta o sofrer.

quando de novo me levanto, abraça-me e deixa-me ir.
não me costura as asas, não me lambe as feridas, não limpa meus olhos de lágrimas maquilhados.

minha mãe faz-me sentir as raízes que me não abandonam e me não prendem nunca e solta-me ao vento.
para que aprenda por mim o fundo das alturas.
para que em mim saiba - seus olhos seguindo-me sempre de longe - que a felicidade minha tem de merecer-me tanto quanto eu a ela.


e abraça-me sempre, minha mãe.
em respeito de sentir.
sem julgamento ou prisão.

neste longe de toque,
abraça-me minha mãe para além do que a não faço saber.






por isso hoje, hoje sobre_tudo, aqui na distância de seu celebrar, esta vontade de estar perto, chegar mais, dizer, fazer saber a essa Mulher que me é raízes e asas, me é exemplo (d)e amizade, me é força e vida de tanto, dizer-lhe,
dizer-lhe com(o) eugénio,

" mãe,
eu não me esqueci de nada."



...




vivo as memórias
guardo o exemplo
sou a força que é ela em mim
quando lá
quando aqui
quando no mundo que for que me habita.











...






é dia de mães em minha terra de mar...



sem longe.
sem longe nenhum.



contigo
também
e sempre
em mim.















(imagem primeira: lord leighton,
mother and child
imagem segunda: lord leighton,
mother and child (detalhe)
imagem terceira: jean jansem,
mère et enfanf
imagem última: pablo picasso,
mère et enfant)

segunda-feira, abril 28, 2008

regresso







" avião lisboa-londres, 27.abril.08



parto de novo.



vejo de cima a terra que amo tornar-se pequenina, mais e mais, até me caber na palma dos olhos, ser não mais que essa lembrança que me marca o ser(-me), força de gente e sentir, causa e recusa de inconstante chorar.



há caminhos desenhados lá em baixo. caminhos desejados que levam onde quis, soube querer, em sonho e vida, um qualquer outro (de) nós.
que sonhamos, podemos, queremos.
mesmo se, quando, às vezes também porque, esquecemos:
somos sempre o que em nós próprios traçamos.





abril trouxe-me a força da vontade.


as papoilas de meu alentejo cantaram-me de côr a vida.


os amigos que família, família que amigos, marulharam-me o tudo que sou.



e eu sei
eu sei
que tudo é querer.



acordo-me dentro do sonho
e desafio-me a escolher:


ganhar asas?
voar para casa?




...





- ser humilde.



viver. "


















...







" let me fall,
let me climb,
there's a moment when fear and dreams must collide

someone i am is waiting for courage,
the one i want,
the one i will become will catch me

so let me fall
if i must fall,
i won't heed your warnings,
i won't hear them

all i ask,
all i need,
let me open whichever door i might open

let me fall,
and if i fall
all the feelings may or may not die

i will dance so freely,
holding onto to no one,
you can hold me only if you too will fall,
away from all
these useless fears and chains.

someone i am is waiting for my courage,
the one i want,
the one i will become will catch me

so let me fall
if i must fall,
i won't heed your warnings,
i won't hear

let me fall,
and if i fall
- there's no reason to miss this one chance,
this perfect moment -,
just let me fall. "








..






(com um abraço
forte
de tanto
à cláudia,
amiga de tudo,
que me amparou a queda de angústia
nesta terra de saudade
e me sempre lembra as asas
as alturas
a gana
de meu voar em liberdade.)
















..








(imagens, música e poema retirados do espectáculo quidam, pelo "cirque du soleil")

sexta-feira, abril 25, 2008

SEMPRE.









a poesia





o povo






a justiça







a liberdade





(vieira da silva)


















(como para sempre
hoje
a lembrança
a saudade
o orgulho
de meu pai.)

sábado, abril 19, 2008

(em) mudança



por esta janela que me abre (a)o escrever
vejo e sinto os passáros que a meu lado voam.
comigo.
eu neles.



nessa outra, onde adormeço em estrelas e acordo na côr do dia, o canto de gaivotas trouxe-me já o mar em sorriso de acordar. o mar que provo também nos olhos quando mergulho em todas as memórias que solto neste espaço novo, algumas tão longe dos dias de hoje, fechadas nestes quadrados guardiões dessa vida a que regresso agora, só agora, um ano e meio depois, todo este tempo trancados para que a mim encontrasse, finalmente, eu, no que sou e sinto e vivo.
sem nada mais.
e tanto, afinal....



abro cada caixote como quem volta ao passado.


volto.



abro fundo esse tempo de antes
e nele passeio
sem rede ou volta marcada.









mas regresso sempre.
regresso sempre a quem sou.

para além do que é não-saber.




















vivo (n)a vida.





deixo que me viva.









sou e respiro o que voa (n)o tempo.



o que me trago
eu
nele.







(dreaming about wings, bogdan zwir)










..







" (...) não pensemos mais: esta é a casa:

tudo o que lhe falta será azul,

agora só precisa de florir.

e isso é trabalho da primavera. "


(pablo neruda)















(nesta casa nova de mim,
é tão forte às vezes o vento nas janelas...

e é só

um segundo andar..



....



mas é bonito.

às vezes lembra-me a noite do mar.




como se perto da praia,
quando fecho os olhos
e respiro em mim seu marulhar.)











( " eu ando pelo mundo prestando atenção em cores que eu não sei o nome
- cores de almodovar, cores de frida kahlo,
cores...

passeio pelo escuro
- eu presto muita atenção no que meu irmão ouve;
e como uma segunda pele, um calo, uma casca, uma cápsula protetora

- ah, eu quero chegar antes...
pra sinalizar o estar de cada coisa,
filtrar seus graus

eu ando pelo mundo divertindo gente,
chorando ao telefone..
e vendo doer a fome dos meninos que têm fome


pela janela do quarto, pela janela do carro,
pela tela, pela janela,
quem é ela, quem é ela?
- eu vejo tudo enquadrado,
remoto controle....


eu ando pelo mundo
e os automóveis correm para quê?
as crianças correm para onde?

transito entre dois lados
de um lado
eu gosto de opostos...
exponho o meu modo,
me mostro


- eu canto para quem?





pela janela do quarto, pela janela do carro,
pela tela, pela janela,
quem é ela, quem é ela?
- eu vejo tudo enquadrado,
remoto controle....


eu ando pelo mundo
e meus amigos....
cadê?
minha alegria, meu cansaço?..

meu amor cadê você?
eu acordei
- não tem ninguém
ao lado


pela janela do quarto, pela janela do carro,
pela tela, pela janela,
quem é ela, quem é ela?
- eu vejo tudo enquadrado,
remoto controle....


eu ando pelo mundo
e meus amigos....
cadê?
minha alegria, meu cansaço?..

meu amor cadê você?
eu acordei
- não tem ninguém
ao lado


pela janela do quarto, pela janela do carro,
pela tela, pela janela,
quem é ela, quem é ela?
- eu vejo tudo enquadrado,
remoto controle.... " )




















desenquadro.


desprendo.


desenlaço.












me.























.












agora


agora

volto


ao abraço do sorriso

à magia da infância

ao viver (d)o mar









regresso(-me) à terra de mim

para beber o abril

que me é côr de voar

















(imagem de autor desconhecido. sadly.)

sábado, abril 12, 2008

(in) memoriam








" a gente não vai para o céu.










é o oposto:

o céu é que nos entra, pulmões adentro.















a pessoa morre é engasgada em nuvem. "


(mia couto)








































...








sábado, abril 05, 2008

(em) descoberta








" i wonder if i've been changed in the night?
let me think. was i the same when i got up this morning?
i almost think i can remember feeling a little different.
but if i'm not the same, the next question is
'who in the world am i?'
ah, that's the great puzzle!
"

(lewis carroll, alice's adventures in wonderland)


















..






abrando o tempo.

o corpo obriga-me a olhar a alma.






olho quem sou

de olhos abertos.





não vou passar
perder
mais
(o) tempo
a esquecer
o que esquecer
nada trará.


por mais a dor de ir
sem poder deixar caixa,
água,
redoma.







sorrio à vida.


ao que nela existe
em verdade
e justiça.




lembro o que quero.

o que amo.



e sigo em frente.



con_tudo.


devagar.


sem correr.


sem correr mais.



sem correr senão para sentir no corpo
o vento que me sorri vida e mar.



sabendo
tão só
tão fundo
o tudo que me é embalo de voar.









































...












" 'everything's got a moral, if only you can find it'.
and she squeezed herself up closer to alice's side as she spoke. "


(lewis carroll, alice's adventures in wonderland)





(imagem primeira: day will come, de haleh bryan
imagem última de gundega dege)

sexta-feira, março 28, 2008

da imobilidade: "on hold"

(in physical pain)




não me mexo.


a mim própria pus aqui, assim a mim deitei
e agora não consigo retomada a força para voltar.
para fazer frente ao risco imprevisivel e gritante da dor física,
e voltar.


condenada pelo corpo, liberta pela mente, mantenho-me aqui, sem ousar mexer um sopro sequer.


dói(-me).


mesmo.




a parede que olho obrigada é vazia.

o medo, agora, também.

como o é, no fundo, esta dor que me passeia as costas.


por isso sorrio.


fecho os olhos e sorrio.

para que mais sorrisos a este se sigam.
para que se mantenha.
me mantenha.
em verdade.
por mais o que é físico e.


olho à volta, dentro:
esta é a minha casa.
a minha vida.
que construo, eu.
eu.
agora.


o corpo aperta
a saudade dói
mas ainda assim,
ainda assim,
neste momento,
a cada momento,
sentir o que me é força dentro,
o tudo que - lembram-me - construí,
o tudo que sou, tenho, quero, faço,
- o coração a bater diferente mas a bater, ainda assim, a respirar a medo, ainda, mas -,
e dizer
sentir
dizer
eu


- neste momento

este de agora

agora

em que estou,


aceito

e quero



estar

ser

aqui

assim

imobilizada

quieta

presa em mim

livre em mim

a aprender

a viver(-me).

sexta-feira, março 21, 2008

"a cura"









wembley arena, 20.marco.2008:




















foi a medo ainda que ali destinei o dia.
apesar de tudo,
a pesar, tanto, tudo,
decidi-me por mim.
como quem.
e fui.

era muito o sentir de ali estar, eu na noite de tanto que era, eu a ir ouvir lembrancas caseiras naquela cidade estrangeira, estrangeira eu, ali, e no entanto parte, tao parte de tudo aquilo, tao parte de tudo e todos...
em londres, por que razao for, sinto-me sempre como que em casa.

ah minha volta, gente de idades muitas, todas ah volta da minha, como se um so, nos.
e o bom que eh saber-se, sentir-se, ser-se parte de.
em semelhanca.
semelhantes, la.
como sempre na vida, afinal.
por mais que o esquecamos.

as luzes diminuiram e o sentir aumentou. as primeiras notas que soam, e eu a deixar-me ir com elas, para alem de mim, ah espera do que fosse, por maior o medo do que traria o recordar. da dor que, hoje, nao pode senao vir com ele.

antes de mim, o sentir a reconhecer a musica. aquele primeiro "beat", depois, que nem flecha direita a mim. como se nada mais, ninguem mais ali. eu so. com a dor do que.
e os olhos imediatamente - sem aviso ou autorizacao - a encherem-se de agua, sem que eu nada controlasse, eu que tao pouco, porque a vida tanto, tao pouco choro por mim, eu ali de lagrimas nos olhos, sem medo ou vergonha de ninguem, nem sequer de mim, eu que solucava dentro, sentia-me a, mesmo se a lagrima presa pelo que nao sei dizer, sem cair, recusando-se a chorar o que fosse.

ali se aguentou, todo aquele tempo de musica sem palavras, tempo tao longo de choro suspenso.

com a voz de robert, essa voz que me entra tao fundo, me marca tao dentro, me tanto canta o sentir, o desabar do choro nessa unica lagrima. essa so. nenhuma mais. "plainsong". a mesma que tantas, tantas vezes ouco dentro de mim, sem que de lugar algum venha senao dai.

e apercebi-me, veio-me devagar, ao longo da musica, que me libertava. aquela noite, sendo o que, a dizer-me que me libertasse. que a vida eh minha, e uma so. que quem amamos ahs vezes eh quem julgamos ser, nao quem eh de verdade, tao longe, longe do que (nos) foi, hoje.

por mais que reconheca, eu, ainda, as vezes sempre, o tanto que, em determinados gestos, olhares, momentos.
o que eh mais, que eh presente - ou nao -, o de sempre, de todos os dias, de cada dia, nao eh, nao eh ja (n)o que se amou.

quem se amou
nunca
nao
nunca
desta maneira.


"i think it's dark and it looks like rain"
you said
"and the wind is blowing like it's the end of the world"
you said
"and it's so cold
it's like the cold if you were dead"
and then you smiled
for a second

"i think i'm old and i'm feeling pain"
you said
"and it's all running out like it's the end of the world"
you said
"and it's so cold it's like the cold if you were dead"
and then you smiled
for a second

sometimes you make me feel
like i'm living at the edge of the world
like i'm living at the edge of the world
"it's just the way i smile"
you said





















e noto,
noto,
no fim,
que sou eu quem diz.

e eh meu,
foi meu sempre,
para além da partilha,
o sorriso.

o mesmo que agora.
agora.


..




nevertheless.

domingo, março 16, 2008

sangue (d)e sentir

e(m) tanta
tanta
dor










decido a lonjura
de mãos presas
e sentir atado


resolvo mudar-me
dentro e fora
deste olhar molhado
- a dor amordaçada
acorrentada ao passado


dos olhos de quem me soube ser,
nada:
um viver de vida
longínquo e amargurado

como se nada
nada nunca
nós
- maravilha de sentir encarnado


e eu não sei,
não sei mesmo
não sei tanto

- eu não sei como foi que fizeste
para que tudo te fosse apagado




" me,
i'm a part of your circle of friends
and we
notice you don't come around.



me,
i think it all depends
on you
touching ground with us.


but
i quit.
i give up.
- nothing's good enough
for anybody else,
it seems.

and
i quit.
i give up.
- nothing's good enough
for anybody else,
it seems.
and...

and being alone is the...
is the best way to be.
when i'm by myself it's the
best way to be.
when i'm all alone it's the
best way to be.
when i'm by myself
nobody else can say
goodbye
.






e eu
agora
não vou
lutar mais

cedo
finalmente
ao teu silêncio
teu desapego
teu nem saber
que ferir

eu agora
sinto só
a imensa dor
do nada que traz
teu não-cuidar
e(m) injusto sentir




everything is temporary
anyway
.
when the streets are wet
the color slip into the sky.
but i don't know why that means you and i are
- that means you and i....
i quit.
i give up.
- nothing's good enough
for anybody else,
it seems.

but
i quit.
i give up.
- nothing's good enough
for anybody else,
it seems.
and...

and being alone is the...
is the best way to be.
when i'm by myself it's the
best way to be.
when i'm all alone it's the
best way to be.
when i'm by myself
nobody else can say
...


me,
i'm a part of your circle of friends

and we
notice you don't come around.
"
















...























..























.




















quarta-feira, março 12, 2008

the (w)hole of 9 months



















looking heavenward you cannot help but shed a tear... mournful... lonesome... a hole that screams out almost as loudly as the roar of the engines that pass overhead.







Get this widget Track details eSnips Social DNA




this is
the missing man formation, whether flown with the wingman spiraling off into the great beyond, or flown consistently with that awful hole where a buddy should be *














...











missing.











(so much) more





than i






can say.















@-,-'-







* tirado daqui

segunda-feira, março 10, 2008

aeroporto


acordei de um sono de poucos minutos quando o autocarro se aproximava do seu destino intermedio, altas as horas da madrugada, altas como os sonhos do mundo que trago em mim.

entrei no aeroporto com a mala por companhia, a mala grande, essa de cada nova viagem, a mesma que, como eu, carrega desta vez o peso do espaco vazio que a torna, afinal, me tornara tambem, tao mais leve.

sentei-me numa cadeira demasiado perto da porta para que me nao acordasse de arrepio o frio que vinha de fora, da rua, de fora, e por isso, por isso so, olhei em volta com meus olhos de ver, meus olhos de procura, meus olhos seguidores da cor que nao conhecem ainda.

mais longe da porta, como que resguardado, um espaco com quatro cadeiras, onde dormia uma rapariga - talvez lhe chamassem mulher - numa ponta e uma senhora de idade - bonita de idade, pude depois ver de perto - na outra.

aproximei-me sob o olhar curioso e quase inquisidor da senhora mais velha. cheguei perto, escolhi a cadeira que partilhava um braco com a sua, e sorri. o sorriso entre estranhos eh do mais bonito e humano sentir que posso viver. sei-o desde que esse homem que nao conhecia me mostrou a forca da vida, me trouxe a forca minha, sem o saber, com seu sorriso aberto. sem o qual nao sei, eu nao sei que teria feito, se nao teria desistido - eu nao sei onde estaria hoje, que pessoa seria, sequer, sem o sorriso desse homem que nao sabe sequer o que.

por isso sorrio, sempre que posso - e pode-se sempre, no fundo... - a estranhos. porque talvez um dia, quem sabe, salve meu sorriso o viver, acreditar, de alguem.

sorrio sempre.
tento.
mesmo que me nao sorriam de volta.
como a senhora de idade, bonita de idade, e lenco na cabeca.

sento-me a seu lado mesmo assim, e encosto a cabeca ah parede, preparando-me para dar ao sono o tempo que interrompi antes ate de se soltar.

levanto a cabeca quando a ouco falar. eh ela quem mete conversa comigo.
comenta a minha bagagem.
eu respondo, a vontade do sono tao vergonhosamente maior que a da fala.
pausa.
"where are you flying to?"
comeco a sentir que nao eh talvez tempo de sono - sera por acaso que me sentei a seu lado?
"portugal", respondo - minha voz com cheiro de sal soh de sentir meu mar de raiz.
ela madrid.
que viaja muito. inglesa. "londoner". a falar-me de tantas terras onde esteve, gente bonita que conheceu quando sozinha, eu que sim, que as pessoas dao tanta cor a uma terra, lembro e falo e trago-lhe-nos minha africa. meu brasil dentro, tambem. que sim, sozinha vivem-se coisas diferentes, sao outras tambem as viagens, nao estariamos aqui agora, as duas, a partilhar calor (d)e humanidade se sos nao estivessemos. eu so, a maravilhar-me em cada ruga de sua cara, tantas e tantas e mais e mais, linda, ela, linda de vida e idade, so, aqui, neste bocadinho do mundo enorme a que nao hesita entregar-se.

penso, enquanto ela fala, lembro-me de pensar nos acasos, cada bocadinho de dia que nos trouxe a estas duas cadeiras de braco partilhado, nesta partilha de tempo em que falamos como quem sabe o silencio, rimos como quem sabe a dor.

ela levanta-se para ir. demoramos as palavras de encontro e desejo de alegria - que te sejam tao boas as viagens que fazes, pequena enorme mulher, que te seja tudo a viagem de ti...

parte.
encosto a cabeca para tras e sorrio, cheia de partilhar, esquecida do sono.

vejo primeiro a bengala, ao ve-la voltar atras.
"i forgot to say.... what's your name, should we meet again?....."

trocamos nomes.
e eu sei, com ela e por ela, que a maravilha de ser livre para tudo, o que vier e o que nao, ha-de ser-me ainda maior, tao maior que a desilusao...
e eh de novo, de novo quem nao conheco, quem me traz agua na vida, e me rega o coracao.

sábado, março 08, 2008

hoje vivo

(mais ainda)


o caminhar
em certeza
e verdade


de ser mulher.
























.

quinta-feira, março 06, 2008

operação


adormeceram minha mãe.

sem lhe contar história alguma ou segurar sua mão,
fizeram-na dormir por quanto tempo quiseram.

minha mãe é forte:
adormeceu de sorriso nos lábios,
em tremor o coração...

minha mãe é pura:
enquanto lhe abriam a pele,
sonhou com a voz da côr de sua terra,
os olhos daqueles que ficaram,
querendo quase abrir-se a si mesma,
a si mesma consertar, arranjar, curar,
como o faz sempre,
e aos outros,
em sua vida acordada.

ela me ensinou a força de quem é para eles,
quem se esquece de si
porque essas outras lágrimas,
outro precisar,
outro sofrer.

a cada dia,
sem desistir,
minha mãe luta por mim,
por minha força,
meu não perder-me de mim
nos fugidos (a)braços de quem não.

luta para que me (re)encontre em mim
sem esses outros que sabe terem optado
por ser-me dor e nada
– nada –
mais.

luta para que me veja e conheça como o faz ela.
que me olha.
vê.
reconhece.

lembra-me o valor que (lhe) tenho,
abre-me os olhos a quem está,
quem ama,
quem dá.


abre-me os olhos a mim.


ela que me ouve as lágrimas
e as suas cala
como ninguém.



..




minha mãe lembra-me que olhe por mim,
em recusa de muro,
em abrir de janela.

por isso hoje, aqui de longe,
reclamo minha (nova) vida
de olhos e sentir postos nela.


































...








(imagem: mother and child, cathy rositano)