quarta-feira, setembro 12, 2007

mo(u)rning
















"they told me, heraclitus, they told me you were dead
they brought me bitter news to hear and bitter tears to shed.
i wept as i remembered how often you and i
had tired the sun with talking and sent him down the sky.

and now that thou art lying,my dear old carian guest,
a handful of grey ashes, long, long ago at rest,
still are thy pleasant voices, thy nightingales, awake;
for death, he taketh all, but them he cannot take. "


(william cory)



























(cada dia
quero mais
ter-te-nos
(re)conhecido
antes.























.....


























tanto.)

sábado, setembro 08, 2007

homesick

.
adj.
acutely longing for one's family or home.

.





















minha amiga de tanto:


vim aqui dizer-te que sei.

eu sei.

sei do peso da saudade.

sei dos dias de acordar difícil,
em frio,
como se todo o sono tivesse sido de olhos abertos em lembranças.

sei que é quase sem-razão
a não-partilha com quem nos foi toda a vida,
diariamente.

sei o que faltam,
o que custa faltarem,

os olhos

as mãos

os
sorrisos.


sei dos dias de querer outro acordar
que não o do silêncio de uma casa vazia de vozes ou memórias vividas.




e a verdade é que a saudade não muda,
permanece,
posso dizer-to porque te não minto.

mas nós podemos
podemos escolher
mudar nela.


e permanecer.

lá onde a nossa gente tem sorrisos de aldeia e mar
mãos que a nossa sabem de cor
olhos onde somos quem fomos.


permanecer.

por maior a fundura, o longe, o medo de tudo.


porque sabemos
sabemos
o quanto
tudo
permanece
em nós.


..

façamos por viver, amiga de mim.
ocupemos o tempo em vida,
a mente em ser presente.
(d)o presente.
que tudo tem em si.
em nós.

como (re)tem o passado
e sorri
a medo
ao futuro.


...




falta o toque, eu sei...
o perto.

o antídoto para esses momentos que nos desavisam da força
e nos fecham dentro, aninhadas de saudade.


falta...


.





por isso aperto a tua mão.































porque sei.














(imagem: drawing hands, de m. c. escher)

terça-feira, setembro 04, 2007

a clockwork life





















o tempo voltou a si.

deixámos já aquela espiral de um querer
de não querer
que chegasse o amanhã.

ficou algures a eternidade da espera, em pé
- o formigueiro no corpo e na alma -,
sem saber se esse amanhã chegaria
ou se já nele vivíamos.

para sempre.





agora resta só a memória confusa desse tempo morto
que nos assombra lembranças e vida.

como se tudo tivesse sido só um sonho mau
- tão indescritivelmente mau... -
que parece ter sido e passado.



..




sim, esse tempo (já) passou...

sabêmo-lo.

por mais que nunca.


























e voltou a si...


o tempo
voltou
a si.





em segredo e de mansinho,
na vergonha de voltar sem ti.


























.












(primeira imagem: close-up clockwork, de konstantin inozemtsev.
segunda imagem retirada de www.kenora.net/watches/)

sábado, setembro 01, 2007

over(.) again.






















longe.

de novo.


terra nova,
gente nova,
cheiros olhares palavras caminhos,
lugares de encontro modos de ser,
espaços que me semearão força
toques de sentir e saber
- tudo,
tudo de novo.


..







mudo na vida o modo de vida.





de novo.




longe.











(imagem: la réponse imprévue, de rené magritte)

quarta-feira, agosto 29, 2007

olhares (d)e marulhos: fim.de.semana.

sexta-feira:
mudança


fora





























dentro





à volta.
em tudo.























sábado:
regresso ao futuro


de autocarro
em turismo e self-discovery
pela minha londres























































a pé
em mim
pela sua
minha
camden













































e neste seu velho
- meu novo -
espaço e canto de mim.





























domingo:
calma e conforto


dados
























recebidos
























































e partilhados.

















no fim
do fim
da semana,
da flor apanhada do chão
no seu início
- assim largada
sem vento ou cuidado,
guardada com(o) lembrança
num caderno que não olha o passado -,
este (re)nascimento,
em água acarinhado:

domingo, agosto 26, 2007

flores dentro.

em frente à casa dele há papoilas.

vermelhas.

gritantes.

livres.


desde que com elas fui terra
são eu em flor,
as papoilas.
a papoila.
vermelha.


que não se venda
ou compre:

selvagem.

corajosa.

vida.































vendida ou comprada,
mesmo se nunca,
a rosa.


desde que com ela fui planeta,
a rosa vermelha:

rubra.

verdade.

dentro.






























dentro de mim,
como semente plantada,
o cravo vermelho.


que não se compre
ou colha:

que brote simplesmente de nós.











































(1ª imagem: poppy blossom #1, de daniel beauvais.
nenhuma das outras tinha autor referido onde as encontrei, lamento...)

terça-feira, agosto 21, 2007

sonho aberto




o dia nasceu.


saio de casa vestida com minha roupa de sono,
vermelha e azul,
e mergulho no verde à minha frente.
apanho gotas de chuva como se fossem fadas
e faço um colar de sentir que as asas levarão a quem.


sou leve
em luz.


sou o universo
e o universo é-me,
vivo como o vento,
cada dia,
cada segundo,
em riso soprado de amor.


renasço.
a bondade molda-me os gestos,
a liberdade pinta-me a vida.


sou feliz.
e cada ser me canta ao ouvido
a côr deste mundo de tudo.






...
















quando acordar, estarei sob raízes em flor,
em sorriso de vôo e certeza.




















..












e a dor não será mais verdadeira
que a paz de saber-me eu.



























(não percam, se puderem não percam, o labirinto do fauno, de que já vos falei, hoje, às 14h, 16h30, 19h, 21h30, no cinema nimas, em lisboa.)

















(imagem: turning point, de brian wiles)

quarta-feira, agosto 15, 2007

ave nocturna



amámo-nos no escuro.


quando todos se ensonharam e o tempo foi nosso,
saímos dos aninhados cantos de vida e distância
e amámo-nos no que fomos.


guardei palavras e sentir
- todos eles,
todos juntos,
todos nós -
como se fossem um só
e esperei pelo fim do dia para tos entregar em nuez minha.
do que sou.


descobri o teu corpo,
cada milímetro,
como se numa primeira vez.
que não lembro.
que reinvento a cada toque
cada beijo
cada roçar de coração.


quando a manhã chegou com a verdade
voltei para longe de ti,
do que fomos,
do que somos agora,
em segredo nosso;
por nós mesmos omitido
ao que se entrega,
como se.


como se à noite,
só de noite
- desconhecida noite -
te amasse.
mais do que sou.
mais do que posso.
mais do que sei.

agora.

segunda-feira, agosto 13, 2007

coragem.

abraço-te
FORTE
como a vida,
com a vida,
hoje.
por hoje.
porque me és vida
e muito mais
tu
tanto
em mim.

domingo, agosto 12, 2007

on a day like today

penso-te muitas vezes.

sem notar - assim mesmo, sem por isso dar -, chega-me a tua imagem.
vinda por vezes do nada.
vinda sempre de mim.

entristeço-me:
é quase sempre a imagem da doença em ti.
da imobilidade, tristeza, tuas.
da impotência, (essa outra) tristeza, nossas.
de quem.

às vezes dou por mim de volta àquele último quarto de hospital,
onde ao absurdo se chamava medo,
o medo escondia a esperança
e a esperança chorava a vida.

lavávamos os sentidos de nós e de tudo o que não fosses tu,
lavávamo-nos com força de ferida para sermos inteiros,
ali.
como tu já não podias
já não sabias
ser.

olhávamos as molduras sem tempo nenhum
- entre nós e o passado que se queria futuro havia,
há-de haver sempre,
o esvair do sorriso,
o desenhar da dor,
o não-saber quem, como, seremos depois de te (vi)vermos assim.



....






























....




não sei quanto tempo vai durar esta estranheza que umas vezes é luto, outras memória, outras só um confuso não-perceber, ainda, como que um não-aceitar, ainda, ainda, a realidade.
a que.

é-me irreal,
ainda,
tudo.
por mais real a tua paz.


.





passo em londres, por entre sítios de amizade, e sinto, noto que há coisas que mudaram para sempre.
agora lembro-te em londres.
e londres lembra-me de ti.

a baker street - a rua em si, não o seu nome - já não é a rua do sherlock holmes.
a baker street é agora a rua perto do "teu" hospital.
é a rua perto dessa outra, transversal, onde vim apanhar ar, tentar respirar qualquer coisa, quando.
onde me recusei ao fim da esperança, como me recuso agora ao resto, se calhar, recusei aceitar esse fim marcado para a vida, como se me não fizesse sequer sentido a fala daquele homem de pele escura e bonita vestido de roupa clara e vazia, aquelas palavras cruéis, pontiagudas, dilacerantes, de tão certas de si mesmas. como se no recolher o choro pelos outros recolhesse a minha própria dor, eu impotente, eu nada, sentada naquele chão daquele passeio daquela rua, um criminoso cúmplice de tudo com sabor a mentol numa mão, a voz de todos os que ficaram, nessa noite, escolheram ficar, quiseram amar, na outra, naquela rua que dantes, dantes, ia dar à rua do sherlock holmes.
agora não é mais que uma transversal de dor que vai dar ao hospital onde, antes de, deitado nessa (outra) cama de lençóis timbrados, sorrias, fazias piadas, eras tu mesmo, esperando a esperança com o medo sentado ao colo.
e por mais que quiséssemos, que tudo tivéssemos feito para reparti-lo, o peso do teu medo era, será sempre, incompreensível para nós, nós todos que não sabemos o que é o temor
verdadeiro e inesperado
da (im)previsivel morte.

e assim essa palavra se apagou de qualquer conversa.
e é bonito, quase, como mesmo os médicos nos falam sempre de esperança de vida...
quando o que se espera, o que se teme, o que se chora a sós, à noite, no escuro, longe dos olhos e ouvidos dos outros, acima de tudo longe da vergonha de o pensarmos, sabermos, já, dentro, nós... é a morte.

para além dela,
só a vida.

dentro dela,
toda a vida.

depois dela...
nós.

vazios.
irmãos.
contigo.
dentro.
em vida.
nevertheless.

..


sempre.















(e agora, meu missing man, o que eu queria, queria muito, era sorrir-te. agora. confortar-te do que fosse. tratar de ti. ouvir-te a voz, ser tua amiga, como se.
por mais breve o momento.
por maior o sonho.
só porque sim.

agora.)

sábado, agosto 11, 2007

espinho (d)e rosa

























estou farta de não poder descansar o coração em ti.









(imagem: embrace, de robinson tuon)

quinta-feira, agosto 09, 2007

foreign morning

(in love and sadness)





" for i know with the first light of dawn
i'll be leaving,
and tonight will be all
i have left to recall. "


















...




entre o medo e as palavras houve sempre a recusa do amor.

sempre,
neste tempo irreal e verdadeiro
que criaste para nós.

condenaste amor e tempo como se fossem um só
e é como se o não soubesses,
agora.
como se a dor infligida
a desilusão
da descrença
a entrega
ao desistir
pudessem ser lavadas
pelo mar da distância.








.....










mas não.


como essa tua palavra.


tantas
e mais
vezes.


"não".



...






..






.






agora só nos resta fechar os olhos
no abraço do que foi
e fingir que sonhamos.
que sabemos sonhar.
nos.
ainda.

para além de.


até (a)manhã.






















(imagens retiradas do livro Love, Sex, and Intimacy - Their Psychology, Biology, and History, de Elaine Hatfield e Richard L. Rapson)




(..."the morning is just a few hours away"...)

sábado, agosto 04, 2007

em jeito de (re)começo.


"mesmo quando nos mudámos para os quartos que o amigo sindi nos tinha recomendado, ainda me estava a sentir pouco à vontade em londres, com saudades de casa e do meu país. o amor de minha mãe não me saía da cabeça e, à noite, vinham-me lágrimas aos olhos e não conseguia adormecer. era impossível conversar com alguém sobre o que estava a sentir e, mesmo que o fizesse, que diferença faria? nada conseguia aliviar a minha angústia. (...) encontrava-me, portanto, entre a cruz e a espada. (...) agora que tinha chegado, deveria ir até ao fim dos três anos, dizia-me uma voz interior."

(mohandas k. ghandi, "a minha vida e as minhas experiências com a verdade")


recomeço-me do zero.

construo
me

mais uma vez.

viajo
dentro
e fora
do que fui
e sou.



por mais forte o que ficou para trás
- tudo o que, de dor nos lábios,
viveu seu imerecido fim -,
abro agora
agora
caminho:
sorrio ao futuro e regresso a mim.


" não vou lamentar, o que passou passou
eu vou embora, meu tempo acabou
tenho muita coisa para descobrir
eu sinto muito mas tenho que ir

vou pro mundo porque nada mais me prende aqui
é o final do show
e não fique magoada porque vou partir
é só o jeito que eu sou

changes
lá vem meu trêm
vem meu trêm
tô saindo fora e agora eu vou me dar bem
changes
lá vem meu trêm
vem meu trêm
sei que tá na hora e agora eu vou me dar bem
- sempre em frente, nunca pra trás

não é por nada não mas vou me divertir
enquanto a vida assim permitir
só vou procurar fazer amigos do bem
se precisar, ajudar também

e agora a liberdade e o horizonte
só você não sacou
nova york, ipanema ou hong kong
é por aí que eu tô

changes
lá vem meu trêm
vem meu trêm
tô saindo fora e agora eu vou me dar bem
changes
lá vem meu trêm
vem meu trêm
sei que tá na hora e agora eu vou me dar bem
- sempre em frente, nunca pra trás

livre
eu me sinto sublime
gente mais gente
o sol e o mar azul

changes
lá vem meu trêm
vem meu trêm
tô saindo fora e agora eu vou me dar bem
changes
lá vem meu trêm
vem meu trêm
sei que tá a minha hora e agora eu vou me dar bem
- sempre em frente, nunca pra trás
- sempre em frente, nunca pra trás "

(letra de seu jorge)


....



por TODA a vossa força,
gente minha
de diferentes redes,

tanto
obrigada.

quarta-feira, agosto 01, 2007

self-encouragement. as a reminder.


em dia de (nova) partida.
até mim.

porque parto de dor nos olhos.
(parte de lágrimas sem voz ou falar...)
mas parto inteira.
(parte cheia...)
a latejar.




















" Muda de vida se tu não vives satisfeito
Muda de vida, estás sempre a tempo de mudar
Muda de vida, não deves viver contrafeito
Muda de vida, se há vida em ti a latejar

Ver-te sorrir eu nunca te vi
E a cantar, eu nunca te ouvi
Será de ti ou pensas que tens...que ser assim?...

Muda de vida se tu não vives satisfeito
Muda de vida, estás sempre a tempo de mudar
Muda de vida, não deves viver contrafeito
Muda de vida, se há vida em ti a latejar

Ver-te sorrir eu nunca te vi
E a cantar, eu nunca te ouvi
Será de ti ou pensas que tens... que ser assim?...

Olha que a vida não, não é nem deve ser
Como um castigo que tu terás que viver
Olha que a vida não, não é nem deve ser
Como um castigo que tu terás que viver

Muda de vida se tu não vives satisfeito
Muda de vida, estás sempre a tempo de mudar
Muda de vida, não deves viver contrafeito
Muda de vida, se há vida em ti a latejar

Muda de vida se tu não vives satisfeito
Muda de vida, estás sempre a tempo de mudar
Muda de vida, não deves viver contrafeito
Muda de vida, se há vida em ti a latejar "



(antónio variações)



....



















(imagem: departure, de NguyenDinh Dang)

sábado, julho 28, 2007

tired.






É muito o que te podia dizer.

Para além das palavras houve sempre o nosso olhar, o nosso amor, mas a desilusão de hoje cega-me o querer, castra-me as mãos, prende-me os olhos que pudessem fugir para olhar-te ainda.

É como se de repente fosse tão óbvio, o escuro à nossa volta... Que eu não quis ver. Desde que tu.

Tão óbvio que de mim se apodera e me esconde num quarto sem porta, onde deixas – deixaste há tempo demais – de me ver.
Mesmo se eu.

Porque te admiti sempre os meus erros,
eu,
como os meus medos, esses segredos – olha, ajuda-me, tenho vergonha mas. E quero mudar.


E tentei sempre ajudar-te. Por mais que.
Sempre.


E nunca te abandonei.
Nunca.
Nunca, quando de mim precisaste e me permitiste sabê-lo, eu te abandonei.
Nunca.

Por isso parto de coração limpo, a olhar tudo o que não seja o passado. Bom ou mau.
Tu agora mostraste-me o que sou em ti, o desenho que pintaste de mim, a recusa em viver quem sou.

E eu agora vou compensar-me por tudo.
Agora vou aprender
comigo
e com quem.

Sim, eu agora vou ser feliz.

E vou-me embora.
Agora chega.
Agora nunca mais.

























(tens razão... é tempo de partirmos.

o amor já não existe como quando, e é escusado fingirmos que algo, alguma vez, vai ser parecido ao que podia ter sido.
que imaginámos em segredo.
em conjunto.
em nós.



parto.
agora sou eu a partir.

tenho uma vida a viver. a construir.
tenho eu de me libertar das correntes de mim própria.

e agora nunca mais te peço ajuda.
agora que aprendi a não ter vergonha de. contigo.
agora não quero
não quero
que te aproximes.

não tenho palavras ou gestos para ti.



tenho uma vida a viver.
uma alma a consertar.

tenho uma mágoa enorme cá dentro
com o teu nome
o teu espaço
a tua promessa
em mim.
ocupou-se de tudo.
ocupaste tudo
- tu
tudo -
com esse empurrão de sentir.
agora.
agora que.
logo agora que.



por isso parto
antes mesmo de partir.

parto de mim
em ti.

parto de nós.



guardo-te dentro.
acho que para sempre.
ou até que.

tenho uma vida a viver.




“do you really think you go to hell for having loved?”



tenho uma vida a viver.
sem ti.




sem nós.

como tu.)


















(imagem de sam lawrence)

sexta-feira, julho 27, 2007

(a)o pé da partida.






















volto à minha escola de adulta-menina.
visito quem fui.

durante 5 anos, estas paredes me viram crescer cair reviver amar mudar de vida trocar de amor aprender coisas conhecer quem sou namorar crescer.

aqui fiz amizades para uma toda vida
e é tão estranho estar de volta que podia chorar.
pelo que não volta, nunca mais.
e no entanto a felicidade, a liberdade, o ar puro de agora.
que dantes, aqui, eu não via, não sentia, não sabia em mim.
mesmo se os outros.

sentávamo-nos aqui, como outros, como estes que agora se sentam nas nossas cadeiras, às nossas mesas, nos nossos lugares.
daquela mesa lembro um silêncio que me fez perceber o amor da amizade.
nesta em que me sento, “o búzio de cós” me chegou à vida, e as palavras nele escritas à mão por essa menina de sempre em mim me fizeram saber a força e eternidade de tão inqualificável amizade.
com ela, por ela, o menino que vai ser pai a ser menino dentro, ele que a cada reencontro me lembra e faz saber que seremos sempre sorriso e cumplicidade.
para além da distância do tempo.
ou do tempo da distância – tanto me faz.

aqui pela primeira vez os ciúmes desse amor que eu não sabia,
mas que afinal.
ano após ano.
até que.

aqui vivi muito.
ri, partilhei, fui feliz.

aqui, nesse tempo, a partilha nos movia a nós, amigos maravilhados na nossa própria amizade.
mais, muito mais que qualquer outra coisa, qualquer outro querer,
nós queríamos dar, mostrar, partilhar.
queríamos ser.

por isso hoje – hoje – somos
conseguimos ser
ainda
nós.
em nós.

por isso sorrio, de lágrimas nos olhos,
a essa melancolia feliz do que não volta
mas é.
para sempre.
















(imagem: woman with umbrella, de michelle whitcomb)

terça-feira, julho 24, 2007

passo de dança. quieto.






















“ Tudo


Tudo me é uma dança em que procuro
A posição ideal,
Seguindo o fio dum sonhar obscuro
Em que do bem, às vezes, nasce o mal.

À minha volta sinto naufragar
Tantos gestos perdidos
Mas a alma, dispersa nos sentidos
Sobe os degraus do ar... “

(sophia)



porque não deixei que a revolta superasse o ser humana,
porque não deixei que o mau-sentir me sujasse coração e palavras,
porque não deixei que a hipocrisia de outrém ferisse quem sou,
eu ontem fui mais além
no caminho
- mais me-importante
que qualquer outro -
de tentar
sempre
ser uma pessoa melhor.

e isso enche-me de uma
quieta
certeza de vida
que me faz respirar
de sorriso
dentro.

nevertheless.

















(imagem: far away from home, de diong)

quarta-feira, julho 18, 2007

a vocês que me vê(e)m escutar marulhos

“ comovermo-nos é estarmos cheios de nós. ”

(vergílio ferreira)



..





aos que sei
e aos que não,
aos que em silêncio
e aos que em palavras,
obrigada.

por me encherem de mim.

convosco dentro.

como que um consolo
de força
e paz.
























...




mesmo.



















(imagem: asleep, de diong)

quarta-feira, julho 11, 2007

no tempo que sucede ao tempo.

"vai parecer que eu estou morto e não é verdade..."





foi há um mês.

um mês exacto.

"to the day", aqui se diz......






















estava claro.
a luz entrava pela janela do quarto branco
onde as enfermeiras te cuidavam.

eu esperei.
esperei à porta.
vi pela frincha o corpo que não eras tu
e doeu-me.
mesmo.
tanto como daquela vez em que te vi, herói, meu herói de coragem e bravura, a andares o máximo que ao longo daquele corredor de espera e choro que não havemos de esquecer nunca, nenhum de nós.
já aí o teu corpo não te obedecia. não te pertencia.
(tanto) depois disso, há um mês atrás, nada de teu te pertencia já.


porque foi (já) há um mês.
um mês desde esse dia em que me pediste liberdade.
em que me olhaste como quem não olha,
menino menino menino.
perdido da vida.
perdido de tudo.
a falares com a tua mãe, e eu a querer dizer-te que sim, que fosses com ela
- vai com ela, pai, não há mais nada para ti aqui.
não há mais vida cheia, há só vazio, dor, só confusão em ti.
vai, confia, abraça.
larga a minha, nossa mão.
vai.

...

..


foste.


.


era noite,
talvez manhã
- quem sabe o que, afinal?...

muitos meses antes do mês no dia de hoje
já eu chorava
aninhada nos braços do amor que então
então
porque sabia
eu sabia
- alguém não sabia? -
eu sabia
e perguntava
e ouvia
e chorava
e sabia do fim
sabia
eu sabia já
quando perguntava
a medo
por medo

"o meu pai está a morrer?....."

...

sabia.
que cada novo dia
era só mais um dia
em que te via

sabia
morrer.
na minha cabeça enleavam-se os "nunca mais",
e eu chorava
e sentia

e não queria
o perfume da morte,
esse de flores misturados sem cuidado nem cor
- um só cheiro que é cheiro nenhum.
e tudo isto tão antes do fim final....




e por isso não há - sabes? -, não há explicação, não há palavras para a coragem de ti, não há filme livro ou brisa que possam dizer, saber, o que foram aqueles dias, um atrás do outro, todos iguais, todos colados, todos piores, em ti.
ou.
que sei eu?
tudo me ficou nos olhos, dentro. desde aquele outro quarto, mais escuro, sim, mas tão mais cheio de espaço de
para
tudo.

tão mais tu, ainda...
tão mais livre.
tão mais vida.

porque nesse quarto, sabes, eu nunca soube o fim.
por mais que nele pensasse.
sentava-me à tua beira
e tu viravas-te para o meu lado
e confiavas-me o silêncio.

eu fazia-te festas.
porque nada mais.

e assim ficávamos
ficámos
muito
tanto
tempo....

e éramos tão família, ali, tão bonitos, quase, não fosse a sombra da dor, tão bonitos que me chora a lembrança, agora, o imutável nunca mais, mas nunca, ali, então, nunca - quero que o saibas porque, olha, eu acreditei sempre até onde era impossível acreditar, e ainda vivia um teu dia de cada vez, então - eu ali nunca te chorei.
por mais que agora.

o silêncio do desconhecido nos unia.
a impotência.

mais que isso a confiança
o amor

a não-desistência.

e tu soubeste, e eu soube, finalmente como se, nós soubemos o tudo que éramos um no outro.
e tudo isso,
pai,
me ficou para sempre.



.....




.



foi há um mês.
era dia.
estava sol.
era claro ainda quando te deixei no hospital sem querer.
quando chorei todo o caminho até longe.
quando não queria estar comigo nem ninguém.
quando disse

pela primeira vez
sobre ti
"não quero falar sobre isso".

porque já nada fazia sentido.
já nada me eras tu.
já nada fazia sentido
de ti para nós
de nós para ti
de ti para ti.



de madrugada
trocaste as voltas ao sentido
e foste.
deixaste o corpo e foste.
como o principezinho.
e a minha sorte, a minha sorte e arma contra a revolta da morte,
é ter sabido, a tempo e horas, pela boca desse um principezinho, que me disse, me lembrou ao ouvido "percebes? é que é muito longe e eu não posso levar este corpo... é pesado demais..."
































......











....









pois.








.











é só que......









......












parece-me só tempo demais
que tenha sido
um mês
(e tanto tempo antes disso...)
que te tenha visto
e ouvido
sem um adeus
pela ultima vez.

domingo, julho 08, 2007

in-between.

passeio a vida nas palavras que sinto
no tremor que confesso
e me torna o rosto incolor
o sonho ténue
os olhos mornos
de mim.


mostro
me
em silencio
a quem
perto
me quer
tanto.
sem mais nada.

cubro
tudo
de palavras
a quem
longe
tanto
me quer.

mas.
























(desafio.
me.
- se o dia acabasse
pela manha
de que cor
a saudade

do sol na pele
da pele nos outros
do mar vivido
do sonho de ti?)







......











...










“yo llore porque no tenia zapatos
hasta que vi un niño que no tenia pies”


oswaldo guayasamin





.













(imagem: llanto, de guayasamin)