sábado, maio 05, 2007

marulhos partilhados

isto dos blogs tem que se lhe diga...

comecei este blog
sem razão
única
ou definida.
aos poucos
sem que por isso desse
tornou-se como que um diário.
desses de confidência,
onde escrevo o que sinto
o que acho saber
o que quero lembrar.

porque os tempos mudaram
e mudei também eu
- eu que agora
acho
tão bonito
tão humano
(e saudável...)
a partilha de nós -
esse diário partilha-se.
parte dele.
parte de mim.
partilhada.

















...

por isso tanto me tocou
comoveu
enterneceu
que
ela
me tivesse escolhido como
um
dos blogs
que a faz pensar.
porque o dela
o faz
a mim.
como me faz sentir.
viver
em poesia
a vida.

como sinal de gratidão
- porque nada mais sei -
o logotipo
aqui ao lado
a lembrar-me
sempre
a bondade das suas ondas
quando escuta marulhos.
quando se senta na praia
e os fica a ouvir.
a lembrar-me
sempre
esse seu espaço,
onde deixa
faz
voar
quem por lá passe.


....

era suposto eu escolher
cinco blogs
que mo façam a mim.......

não consigo.

são demasiados.
há demasiadas asas
demasiados céus
por essa internet fora.

mas porque não quero "guardar" este "prémio" para mim,
nomeio
sim
um blog.

sem esse blog
este não existiria.

nesse blog
com esse blog
pensa-se.
sente-se.
aprende-se.
vive-se.

nesse blog
uma rapariga
que foi mãe
e não deixou
por isso
de ser ela.

uma mãe que ama
mas não cega.
que abraça
mas liberta.

uma mulher que duvida
mas persiste.

uma menina que cresceu
mas sonha
sorri
criança.

www.aervilha.blogspot.com

this one's for you:




(imagem: natura, de ana nicolau)

quarta-feira, maio 02, 2007

canto de vida.












" monday finds you like a bomb
that's been left ticking there too long
- you're bleeding
some days there's nothing left to learn
from the point of no return
- you're leaving

hey hey i saved the world today
everybody's happy now
the bad thing's gone away
and everybody's happy now
the good thing's here to stay
- please let it stay

theres a million mouths to feed
and i've got everything i need
- i'm breathing
and there's a hurting thing inside
but i've got everything to hide
- i'm grieving

hey hey i saved the world today
everybody's happy now
the bad thing's gone away
and everybody's happy now
the good thing's here to stay
- please let it stay "


(eurythmics, i saved the world today)



...


canto
vivo
sozinha
por uns dias
neste espaço que também me é casa.
que volta a sê-lo.
por mais diferente.
aquela a que o filho sempre.
aquela que "no matter what".
aquela onde uma mãe lambe as feridas a suas crias
e as ensina e ajuda a caminhar de novo.
por seu próprio pé.
lhes dá asas para que voem
sós
e lhes rega as raízes,
também.

e sei
sinto
a sorte que tenho
de ter
sempre
como porto de abrigo
esta casa
canto
de mim.

também
por isso
sou feliz.
não posso não o ser.
há isto,
há aquilo,
e o isto é tão grande, tão sem tamanho, tão injusto de dor...
e o aquilo magoa tanto, é tão dentro, tão injusto de ausência...
mas não posso dizer que não sou feliz.

meu pai sorri dentro
nos olhos
por mais sem força
por mais sem mostra
ainda
quando sente o amor.

isso faz-me sorrir
ainda

ser
ainda

com ele
por ele
vida.

....


e às vezes invade-me assim este amor todo
pela vida e os outros
todos os outros
que vivem e não
que escondem e não
que aceitam e não.
se aceitam.
e não.

às vezes ando assim pela rua
e é como se
de cada ser
que cruza nossos caminhos
emanasse uma luz
tão imensa de si,
tão bonita de vida,
tão côr de nós....

penso na dor.
sim.
sinto-a.
tanto.

mas.
a vida.


.....







e eu queria salvar o mundo.
fazer de todos os dias abril, dentro.
a felicidade de ser livre.
a liberdade para ser feliz.
sem o medo.
sem muros ou defesas.

eu queria mesmo salvar o mundo.
abraçá-lo.
embalá-lo.

abri-lo por dentro
ir ao mais centro dos centros
e plantar a felicidade.

aguardar a estrela de alba
e vê-lo acordar de vida.
em liberdade.

segunda-feira, abril 30, 2007


















continuo sem pertencer.

os sorrisos de estranhos nos espaços que cruzo,
a bondade de quem não conheço,
curam como abraço amigo
- salvação que a ninguém peço.

se começasse a chover o alívio era nenhum:
agora,
com a chuva forte,
o terror entra nos olhos,
vai à janela,
olha as gotas que doem no vidro,
ouve no seu desespero a dúvida cujo fim se teme
ou talvez anseie,
sem saber o que,
ainda sem saber,
condenados
todos
a nunca saber o que querer
para aquele cujos dias são contados
marcados
pela luz do dia e dos olhos que chegam
e o escuro da noite que os leva para longe.

se somos divinos, por que não imortais?
para quê o sofrimento de quem não aguenta
- aguentando -
mais?


...



confundo-me.
revolto-me.
pacifico,
sem calar,
gritos dores medos
abandonados confusos desesperados
a esperar
ainda
por mim.


...



continuo sem pertencer.

mas recuso
de alma e vida
a entrega egoista
a meu próprio sofrer.















.









(imagem: ?, de guayasamin)

terça-feira, abril 24, 2007

abril na noite



de lágrimas
livres
nos olhos
e um arrepio
de vida
viva
no coração,
eu
hoje
vou sorrir
e pensar em ti.

levo-te comigo
em mim
para além das paredes
brancas
castrantes
dolorosas
sufocantes
desse quarto de hospital.
para gritarmos
celebrarmos
cantarmos
juntos.
como se antes.
como se nada.
para sempre.

sexta-feira, abril 20, 2007

à mulher que não sabe de si





envio-te paz.
abraço-te em tanta paz, toda esta que me enche, vinda do amor a tudo o que me rodeia, que me é vida maior que tudo o demais.

andas tão perdida que te cegas do espelho, e pensas que já te não leva para terras longe, tão perto, onde tudo é lua e mar, mar e lua, e a vontade do que se quer é regra para que aconteça a vida.
abre o medo e olha em volta: o mar ecoa ainda dentro da concha fechada em ti. a lua marulha-te os sonhos no sal dos olhos que reconheci.
e existem. sempre. assim. no que és, dentro e fora, por mais que te falte o caminho agora, por mais que o lodo te sufoque a vontade de lutar e viver.
um porto que já não abriga não é o fim – é transformação, amanhecer.
o sol que então te cega é o mesmo que te há-de aquecer.
e os passos que não sabes de cor guiar-te-ão o anoitecer.

dos teus braços nascem ramos que julgas condenados, amaldiçoados, perdidos da chuva e do sol.
não.
ergue-os, sente o sol que te aquece o rosto marcado pelo cansaço da vida, deixa-te cair sobre a terra e sente o rio, adormecida. respira fundo, respira o mundo, respira a vida que te lateja nas veias, raízes, certezas de ti.

eu sei quem és.
sei que medos o presente te traz.
mas sei,
mais do que isso,
sei do és capaz.

acalma o dentro.
lembra e deixa fluir a beleza do amor,
por ti e em ti.
porque é só isso a vida.
e porque vives para ser feliz.
nada
ninguém
senão tu
pode libertar-te da prisão em que te guardas.
que é só tua.
nada senão tu,
livre e em amor.


...




sei que o escuro, gasto e velho,
te assombra a vida futura.
que o desespero que também vivi
é luta injusta de tão dura.

mas abre uma nesga do espelho,
deixa entrar o canto do mar!
levanta-te no esplendor de ti,
renasce, onda, em teu rebentar!

amanhã, ao clarear,
sorri de felicidade divina -
acolhe o mundo no teu quarto.

sem o medo, sem vacilar,
goza a vida em amor, menina,
feliz em teu próprio parto.



























....









(imagem: resistence, de ana nicolau)

quarta-feira, abril 18, 2007

carta ao filho do menino que vai ser pai

querido pequenino,

benvindo.

sei que não nasceste ainda, mas como diz o poeta “em qualquer aventura, o que importa é partir”, e tu partiste já para te juntares a nós nesta vida que, diga-se o que se disser, digam-te o que disserem, é mesmo muito boa e bonita.

falei-te do poeta porque sei que não vai ser preciso muito tempo até que aprendas a palavra poesia, que a sintas no sangue, no sentir, no respirar, como o teu pai.

o teu pai, esse crescido sempre menino, há-de ensinar-te a poesia.
ou talvez não ensinar-te, porque não é assim que ela se aprende, mas há-de acarinhar-te com o sorriso do vinicius, do pablo, do drummond, da sophia ou do eugénio, entre tantos outros. e hás-de, tu também, tratá-los por tu, pelo primeiro nome, esses amigos que nunca conheceremos, mas que a nós parecem conhecer tão bem.
como há-de embalar-te ao som da elis, do chico, do tom, do toquinho, e tantos outros que te pintarão os sonhos com a música da poesia, com as suas próprias palavras, e as desses outros que nos dão a magia da vida de bandeja, mesmo quando a não vemos nós, meros e especiais mortais, que com eles encontramos a felicidade numa nesga de mar, num pedaço de fruta, ou num abraço amigo.

a amizade, pequenino, também ele ta há-de ensinar, e que professor vais ter! teu pai menino é daqueles amigos que ficam – um dia hás-de saber também das pessoas que não passam.... -, seja para abrir a janela que dá para esse mar, para por nós colher essa fruta, ou para escrever num pedaço de papel um qualquer poema que nos fará voar mais alto que nós próprios sonhámos ser capazes de fazer.

falo-te pouco da tua mãe – peço-te desculpa por isso – porque a não conheço tão bem. mas não duvides que a sorte que tens é mesmo muito, muito grande. mesmo não a conhecendo pelo sentir, como a esse AMIGO que é o teu pai, posso dizer-te uns segredos, que o não são, sobre ela:

a tua mãe, pequenino – sim, como o teu pai. e é tão bonito, o seu amor, também por isso... –, canta quando ouve a palavra liberdade, luta pela justiça como se não soubesse não o fazer, sorri lágrimas felizes quando se fala em abril. é menina, também. nenhum deles se deixou esquecer no caminho para a vida adulta.
já viste a sorte que tens?....

por isso, pequenino – porque, não sei porquê, sinto-te menino, sabendo que se fores menina o amor, a partilha, o sonho, serão iguais -, mais que dar os parabéns aos teus pais, é a ti que congratulo (que palavra difícil, esta... não precisas de a aprender já, está bem?...).
pelos pais
amigos
meninos
que já tens.
por tudo o que és

neles.



















vem.
podes vir quando for,
seguro de que te aguardam
de sorriso nos olhos,
ansiosos por te receber
e embrulhar
em amor -
maravilhados,
maravilhosos,
de vida
em flor.











....









(imagem: expecting my baby, de julio alejandro)

quinta-feira, abril 12, 2007

retorno.

" existence is a young child
moving through a lane
at night:

it wanted to
hold my
hand. "

(st. catherine of siena)


.







renasço na vida...

















em mim.











....









(imagem: rebirth, de ana nicolau)

quinta-feira, abril 05, 2007

tempo de vida.

hoje é dia de ir ver-te.

arrumo bem os sentires,
calo a
(outra)
dor,
engulo o
(outro)
medo,
sufoco a
(outra)
morte,
e vou.

vou agarrar-te a mão
vou olhar os teus olhos
dar-te os meus a olhar.

vou enchê-los de toda a côr
todo o sorriso
toda a força
que agora falta
e fazê-la
renascer
para ti.
em ti.

levar-te a vida
levar-te o mar
levar-te o mundo
que te escapa
como gotas que não doseias.
que já não podes controlar.

levantar-te dessa cama
salvar-te o corpo que não sei
arrancar-te à tristeza
pesada como lama
mostrar-te os lugares que por ti abracei.


quero dançar contigo a dança dos relógios antigos.



por isso hei-de aproximar a cadeira da cama.
e hei-de fazer-te festas
olhar-te a medo
analisar cada marca
cada diferença
- tu para além de mim
para além de tudo
nesse sítio só teu
de fantasmas
medos
e
desmesurada
coragem.


...




a verdade é que tenho muita vergonha
do nada que posso fazer.
de verdade.
de certeza.
qualquer que.

a verdade é que me choca
de maneira cortante
- como se o não soubesse
tão dentro de mim -
este nada que somos
no tudo que fomos,
esta alma sem peso
na vertigem do fim.



























....









(imagem: graça morais, da série "as escolhidas" - sépia sobre papel)

quarta-feira, abril 04, 2007

against all odds.

















nevertheless.







.......





terça-feira, abril 03, 2007

renascimento menino

" Os contos de fadas são mais que verdade -
não porque nos dizem que os dragões existem,
mas porque nos dizem que os dragões podem ser derrotados. "

(G. K. Chesterton)



"el laberinto del fauno"
é cinema puro.

assim mesmo,
com toda a franqueza
crueldade
e beleza
do ser-se puro.



e toda a noite
por sobre a trovoada

perdida
nos céus
e nos dragões
de mim

a mais doce
das vozes
de embalar

a cantar-me
a lembrar-me

a vida
para além do fim.

domingo, abril 01, 2007

june says goodbye to her name



sentou-se à mesa e escreveu.
escreveu, escreveu, escreveu, escreveu.
escreveu até não haver mais palavras para tudo o que contaminava, dentro.
como doença.
essa que.
escreveu tanto que a luz se cansou, também, das sombras, e foi ao choro de vela que dançou as últimas palavras, jurando a si mesma não correr atrás de quem largou
faltou
falhou
ao amor.

abriu a janela
abriu a rua
abriu a ferida
e fingiu morrer.















- amanhã
se houver vida
serei eu a renascer.












....









(imagem retirada do filme surviving desire, de hal hartley)

quarta-feira, março 28, 2007

memórias para um fim final

" Esperança e desespero de alimento
Me servem neste dia em que te espero
E já não sei se quero ou se não quero
Tão longe de razões é o meu tormento.

Mas como usar amor de entendimento?
Daquilo que te peço desespero
Ainda que mo dês - pois o que eu quero
Ninguém o dá senão por um momento.

Mas como és belo, amor, de não durares,
De ser tão breve e fundo o teu engano,
E de eu te possuir sem tu te dares.

Amor perfeito dado a um ser humano:
Também morre o florir de mil pomares
E se quebram as ondas no oceano. "

(sophia)





não posso dizer que te não amo.
mentiria.
e desde que te perdi pela mentira de nós,
da força de nós,
que recuso a mentira.
a passividade.
o abandono.
tudo me lembrará para sempre o amor mais importante,
de entrega
partilha
equilíbrio
universais
- e mesmo estas palavras serem tão pouco para o que tivemos nós...

era assim quase irreal, lembras-te?
ainda te lembras?
não dava para acreditar.....
quase divino.
talvez por isso condenado,
nós sem o sabermos,
meros humanos a quem foi dado tamanho sentir,
que rasgámos
ferimos
assassinámos
como se eterno.
ou nós.
nós que nem de nós mesmos conseguimos cuidar.
nós na cegueira do amor que se sente,
mas não é feito sentir.

eu prisioneira dos teus gestos
acções
palavras
esses espaços do nada que
a pouco e pouco,
de dor alucinante
em solidão dilacerante,
me definharam em mim,
me sugaram o coração de todo o sangue
e nos lançaram ao abandono do vazio.

e tínhamos tudo.

nós tínhamos tudo
para ser
e sorrir
de vida
feliz.

se tivéssemos acreditado.
ficado.
se soubéssemos que quem ama espera
- não trai definitivamente.
que mesmo depois de traído
quem ama não desiste do sempre.
da força.
mas tu.
tu que traiste o amor, a entrega,
o medo da morte e do fim.

tu que és tão sangue dentro
que não sei o que será de mim.


mas não posso.
não posso ficar.
ou esperar.
mesmo se te amo ainda,
com a dor em vida a pedir-te consolo,
tu que curas as feridas de ti
como se não fosse já nada,
eu....

...

a outros me entregarei.
como tu.

serei feliz.
como tu.

mesmo que a ti prove sempre
quem tocar meu corpo nu.












....






(clip extraído de: le fabuleux destin d'amelie poulain, de jean-pierre jeunet)

segunda-feira, março 26, 2007

sobre "os grandes portugueses":

que triste o pouco valor que se vai dando à liberdade que
hoje
temos...






















[AEPPA - Associação de Ex-Presos Políticos Antifascistas
Documento elaborado entre 25 de Abril e 30 de Setembro de 1974.]




...



ao realizador da rtp
por ter terminado o programa
num grande plano da imagem de zeca afonso
o nosso obrigada.
o deles,
também.
e tantos que.
porque não esquecemos.












.....









[Imagem (clicar sobre a mesma para melhor visionamento): pág. 67, de Mil Dias, Editora/Sérgio Guimarães, Diário de uma revolução, 1º Vol., sob direcção de Orlando Neves, com a colaboração de Carlos Pinto dos Santos, Carlos Osório, Eduardo Maia Cadete, José Carlos Vieira, Maria Carrilho, Mario Fabre e fotografia de Hernando Domingues.]

sexta-feira, março 23, 2007

é meu o grito desumano.
calado.
de não saber.
de mim ou ninguém.
de me ser amputado o gesto
quando estendo o braço a quem.

mas não desisto.
não me fico.

a minha força
é a do que sou.
da onda que limpa
e do mar que a criou.
se sozinha for,
sozinha vou.

a força tem de ficar.

como quem não desiste
e sonha o futuro.
como quem desafia
a morte no escuro.

a verdade é só uma.
ser forte é querer.
tudo o resto
mentiras
a trair o viver.


























....






(imagem: trying to fit in, de dale wicks)

quinta-feira, março 22, 2007

ao lutador.

um ano depois.


" Intervalo

Eu só quero silêncio neste porto
Do mar vermelho, do mar morto

Perdida, baloiçar
No ritmo das águas cheias

Quero ficar sozinha neste espanto
Dum tempo que perdeu a sua forma,

Quero ficar sozinha nesta tarde
Em que as árvores verdes me abandonam. "

(sophia)













...




se ao menos eu pudesse
tanto.












....






(imagem: soaring alone, de bill nyman)

quarta-feira, março 21, 2007

dia de.

à poesia
onda
ar
libertação
de mim

e aos poetas
que me embalam
regam
marulham
a vida
e os sonhos...

o meu obrigada.


(não ler este poema até ao fim
é um crime
que cometerão
sobre vocês mesmos.)



" Ode à Poesia


Perto de cinquenta anos
caminhando
contigo, Poesia.
A princípio
me emaranhavas os pés
e eu caía de bruços
sobre a terra escura
ou enterrava os olhos
na poça
para ver as estrelas.
Mais tarde te apertaste
a mim com os dois braços da amante
e subiste
pelo meu sangue
como uma trepadeira.
E logo
te transformaste em taça.
Maravilhoso
foi
ir derramando-te sem que te consumisses,
ir entregando tua água inesgotável,
ir vendo que uma gota
caia sobre um coração queimado
que de suas cinzas revivia.
Mas
ainda não me bastou.
Andei tanto contigo
que te perdi o respeito.
Deixei de ver-te como
náiade vaporosa,
te pus a trabalhar de lavadeira,
a vender pão nas padarias,
a tecer com as simples tecedoras,
a malhar ferros na metalurgia.
E seguiste comigo
andando pelo mundo,
contudo já não eras
a florida
estátua de minha infância.
Falavas
agora
com voz de ferro.
Tuas mãos
foram duras como pedras.
Teu coração
foi um abundante
manancial de sinos,
produziste pão a mãos cheias,
me ajudaste
a não cair de bruços,
me deste companhia,
não uma mulher,
não um homem,
mas milhares, milhões.
Juntos, Poesia,
fomos
ao combate, à greve,
ao desfile, aos portos,
à mina
e me ri quando saíste
com a fronte tisnada de carvão
ou coroada de serragem cheirosa
das serrarias.
Já não dormíamos nos caminhos.
Esperavam-nos grupos
de operários com camisas
recém-lavadas e bandeiras rubras.

E tu, Poesia,
antes tão desventuradamente tímida,
foste
na frente
e todos
se acostumaram ao teu traje
de estrela cotidiana,
porque mesmo se algum relâmpago delatou tua família,
cumpriste tua tarefa,
teu passo entre os passos dos homens.
Eu te pedi que fosses
utilitária e útil,
como metal ou farinha,
disposta a ser arada,
ferramenta,
pão e vinho,
disposta, Poesia,
a lutar corpo-a-corpo
e cair ensangüentada.

E agora,
Poesia,
obrigado, esposa,
irmã ou mãe
ou noiva,
obrigado, onda marinha,
jasmim e bandeira,
motor de música,
longa pétala de ouro,
campana submarina,
celeiro
inextinguível,
obrigado
terra de cada um
de meus dias,
vapor celeste e sangue
de meus anos,
porque me acompanhaste
desde a mais diáfana altura
até a simples mesa
dos pobres,
porque puseste em minha alma
sabor ferruginoso
e fogo frio,
porque me levantaste
até a altura insigne
dos homens comuns,
Poesia,
porque contigo,
enquanto me fui gastando,
tu continuaste
desabrochando tua frescura firme,
teu ímpeto cristalino,
como se o tempo
que pouco a pouco me converte em terra
fosse deixar correndo eternamente
as águas de meu canto. "


Pablo Neruda


(Tradução de Thiago de Mello)

























....









(imagem: poetry, de ?)

terça-feira, março 20, 2007

verdade(s).

eu agora só queria fugir.
pegar em mim, em tudo o que sou, e correr correr correr, correr até não haver mais areia para os pés, correr com tanta força que o vento se visse empurrado a desenhar-me lágrimas de olhos, e que essas lágrimas me furassem a pele, me rasgassem por dentro, me obrigassem todo o corpo a chorar.

eu agora só queria chorar.
chorar, chorar, chorar, chorar e chorar. só isso. não sei que mais liberte este sentir tão confuso, tão cheio de vazio, tão tudo de nada, tão seco por mim. que me não permito. e me não proibo. que vivo, só, e isso é tão pouco, parece tão pouco, tão nada, agora.

eu agora só queria dormir.
fechar os olhos ao mundo, fechar os olhos à dor. dormir para além dos outros, dormir para além de mim. sonhar?... só se o mar. não quero outro sonho que não o mar de mim. tudo o resto passa, tudo o resto vai. tudo o resto é sonho. tudo o resto é só o que não é para sempre.

eu agora só queria não ser.
não existir, por um bocadinho. não ser, não precisar, não saber. queria fundir-me num grito que tocasse o imenso presente de agora, me ensurdecesse, me fizesse não saber de mim, dos outros, de nada.

eu
agora
queria
que não existisse
nunca mais
o nunca mais.




























....









(imagem: despair, de gwendalin qi aranya)

domingo, março 18, 2007

quotidiano(s).














toco o cobertor.
por debaixo a coberta, por debaixo o lençol, só depois a mão dele. mas sento-me à ponta da cama - não consigo chegar-lhe à mão. toco o cobertor, só – não consigo chegar-lhe à mão.

o tempo pára.
ali, o tempo não deixa passar a vida, não deixa sonhar o que vem. ali o tempo pára, e tudo o queremos, vivemos e damos é só nada.
é espera, só.
enlouquecemos à procura de saber o que esperamos, se isto ou, aquilo ou talvez, e não sabemos – nós não sabemos o que esperar.

há tubos por todo o lado, e o cheiro, o cheiro é tão característico, não de um sítio igual a este, mas este sítio igual a si mesmo, igual a este momento, a este nunca mais que custa a passar, esta verdade que nos faz reclamar, sem o direito, sem um sujeito que venha, saiba, diga. verbos, precisamos de verbos, acção, não é assim? ...... corrói-me por dentro tudo aquilo contra o qual nada posso – dêem-me coisas, dêem-me nadas para pontapear e castigar, como se. falta-me o ar, estou enjoada, socorro, a impotência mete-me nojo, a minha, eu que nada posso contra o sofrimento de, eu que nem sei dizer o que virá amanhã, se lhe devemos sorrir ou pedir que não chegue.


...


não largues a mão, não cedas ao medo
– ajuda o tempo a respirar

respira-o fundo, enconcha, marulha
– cala-te o frio que teima em chegar









....






(imagem: afraid of the dark?, de peter kozikowski)

segunda-feira, março 12, 2007

life's a beach...














and then you live.



















(imagem: costa da caparica, 11.03.07)

sexta-feira, março 09, 2007

30 (parte 2: aquilo que fica)

agora
já tenho
um marco
físico
para os meus 30 anos.














...


obrigada
a ti
por todo o trabalho
acarinhado
que.

porque
não sei
mesmo
dizer
o tanto
que significa
em mim.




















....



e porque já algumas vozes
falaram
pediram
uma reposição,
aqui fica,
no mais indicado dos posts,
fotografias de telemóvel,
cá e lá,
música dos killers,
e muita noite em frente ao pc,
(maldito movie maker!!!!),
a brincar com o editar,
na não tão longínqua londres.
"eu longe".



quinta-feira, março 08, 2007

hoje celebro

a coragem
o direito
a maravilha

de ser mulher.





























....









(imagem: jeanne hebuterne with the hat, de amedeo modigliani)


terça-feira, março 06, 2007


















podia dizer-te que enlouqueço.
aos poucos, aqui, assim, sinto-me enlouquecer.
quando imagino o passado, o acreditar de tanto, o equilíbrio,
para além da vida,
o tudo que nunca conheceu ninguém senão nós,
podia,
podia dizer-te que duvido tê-lo vivido realmente,
que chego a duvidar de que algum dia tenhamos mesmo existido.
ou que tenha existido
eu
em verdade
em ti.

porque o canto do teu silêncio é mais claro que as memórias, mais perfeito que nós, mais forte que eu.

e sinto só
para além de tudo
a revolta.
a revolta de me não levantar, olhar a tua ausência nos olhos, fazê-la a ela sentir o medo, o terror, o veneno que.

mas a cada dia
a cada dia
de abandono
largo-te de nós.
roubo-te às memórias –
tu que não mereces,
tu que não lembras,
tu que não amas.

cubro o meu sentir
e ergo-me
hei-de erguer-me
sozinha.
seguir em frente.

desculpa
(ou não):
tenho um compromisso
de vida
com a vida de mim.








....






(imagem: letting go, de annekarin glass)

segunda-feira, março 05, 2007

instante inverso


















lamento-me
peno-me
traio-me
sem que o consolo chegue
sequer
a respirar-me
em vida.

e hoje
hoje
foi um
outro dia
de instantes
inversos
em que o amor
vestido de enganos
bordados a nada
me disse
adeus.








....






(imagem: lamento da gaivota, de graça morais (detalhe) )

sábado, março 03, 2007

3 de março.


sexta-feira, março 02, 2007

livres.


vinha com a menina dos olhos de mel rua abaixo, passámos a praça da ALEGRIA para acabar na avenida da LIBERDADE.

(gosto muito dos nomes de algumas ruas de lisboa (acredito que os haja um pouco por todo o portugal, mas falo do que me é mais perto, do que sei assim, de coração)... há coisa mais bonita que dizer que se mora na rua da esperança, na praça da alegria, avenida da liberdade ou praça 25 de abril?.........)

pelo caminho ela falava-me do envolvimento do meu pai no PREC, que eu desconhecia, mas que me encheu assim de um orgulho bem especial.
mais um.

disse-lhe adeus e pus-me a caminho do metro.
chegada aos restauradores, dei comigo no meio da preparação de uma manifestação, marcada para hoje pela cgtp...
nem de propósito.















e foi bom de sentir,
o calor da gente minha
o burburinho das vontades
o cheiro a vida
a força sanguínea
daquela
humanidade
toda
ali junta
em revolta
mas
e
também
camaradagem.















e
de lágrimas nos olhos
respirei a liberdade.

quinta-feira, março 01, 2007














hoje apetecia-me o passado.
assim mesmo,
sem vergonha
ou pesar.
hoje queria só
não ser hoje.
por debaixo dessa cama de amor encontro
caminhos de antes
escondidos do tempo
e da dor.
cuidados.
urgências do querer.
do estar.
o pó os transformou na certeza do que não volta
não vive
não é
para sempre.
e eu não quero

não aguento
saber.
quero só fechar os olhos
e dormir
dormir
dormir durante a batalha
do que se quer
e o que se tem
e acordar só

quando me lembrar
me vir
sentir
quem sou.
porque por mais que me rasgue
me fira
e vire do avesso
tu não virás.
por isso
por isso
fecho as mãos
dedo a dedo
aperto os olhos
lágrima a lágrima
e deixo mesmo
mesmo
de tentar

pintar
de vida
e côr
a tua ausência.








....






(imagem: alone, de ferenc j. haraszti)

quarta-feira, fevereiro 28, 2007














tira-me do silêncio, tira-me este nada.

enleia-te em mim, cose-me por dentro, cose-nos por fora, o que for - tira-me deste silêncio de escuro que me trava o sorriso e me enuva por dentro.
vês-me? tu vês-me? não me dês o silêncio. tira-o de mim - não mo dês.

não me dês o desapego, a fuga, a falta de, falta de mim. basta-me a mim não saber onde sou - não me dês o silêncio sobre tudo o mais. sobretudo, não me tragas o vazio de palavras que não.
vê longe a minha vida, que vejo de fora - é o quê que ouves, para lá da ilusão?....
enrolo-me.
enrolo-me em mim.
não quero saber mais.
larga os meus dedos
o meu toque
o olhar que ama
tudo aquilo que rejeitas agora,
que cobres de silêncio,
cobras sem nada dizer.
vem e larga-me de mim.
e finge não saberes o frio que tenho,
que me dói e emudece assim.







....






(imagem: elena vasileva)

terça-feira, fevereiro 27, 2007

"joão"

com um sorriso de orelha a orelha
que traz o passado
o futuro
e a eterna
assim sempre
presente
protecção

com princípios de coragem
coragem para a força
e essa força sem explicação

com tudo o que te vejo ser
dar
sempre
e viver
de coração

hoje
mais do que
de sorriso nos olhos
e orgulho
de vida
no sangue
que é mão

sorrio-te
cúmplice
verdadeira
e feliz,
meu irmão.



























....









(imagem: children's embrace, de alexandra white)

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

às voltas com a(s) diferença(s)























" The Road Not Taken


Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;

Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same,

And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever come back.

I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I —
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference. "

(robert frost)


porque é
tanto
o que
empurra
puxa
e também
que eu já não sei
não sei
como a outra
se saberei
mesmo
sentir.

ou o quê
- já tanto me faz.







....






(imagem: ana nicolau)

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

obrigada.



















" Enquanto Há Força

Enquanto há força
No braço que vinga
Que venham ventos
Virar-nos as quilhas
Seremos muitos
Cantai rapazes
Dançai raparigas
E vós altivas
Cantai também

Levanta o braço
Faz dele uma barra
Que venha a brisa
Lavar-nos a cara
Seremos muitos
Seremos alguém
Cantai rapazes
Dançai raparigas
E vós altivas
Cantai também"

(josé afonso)



....


do mais fundo de mim.
mesmo.
sempre.

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

desisto

de querer ser um
qualquer
deus

e saber o amanhã.



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(imagem: waiting in repose, de dale wicks)

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

?.......

que esperamos nós
de mão dada
com o irreversível?

que podemos esperar
de olhos postos nas gotas que caem
uma a uma
alimento de vida
vida de fome
prolongada?

(...)

que esperamos nós
que não sabemos
não sofremos
não sobrevivemos
como
e somos só
assim
nada
na luta
disputa
conduta
do que nos é

dúvida
medo
incerteza
e dor
a cada dia
a cada minuto
que passa
se arrasta
ainda
pela impotência de nós?



























....








(imagem: personal, de dale wicks)

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

limbo - III

todas as noites

as quatro crianças

abrem o escuro
nas mãos

e apertam os olhos

doídas
e doridas

do não-saber.

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

a desilusao cai sobre o que sinto
como um destino que se nao pode evitar.
se nao pudesse.
se existisse.
mos.





















....





(imagem: emptiness, de martine rhyner)

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

por que SIM?

porque a pergunta é
simplesmente
"Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras dez semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?".

e não
"É a favor do aborto?"

ou
"Acha que o aborto deve ser utilizado como método contraceptivo?"
como alguns senhores da campanha do "não" fazem questão em fazer crer ao eleitorado.

a pergunta
é
"Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras dez semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?"


...


eu concordo,
SIM.

concordo,
SIM,
com a mulher que tem de abortar, decide abortar, poder fazê-lo no seu país, em condições de segurança e higiene, entre outras, sem correr o risco de morrer, sem correr o risco (dessa forma tão acrescido) de não poder voltar a engravidar, sem correr o risco de contrair dívidas sérias para poder ir fazê-lo a espanha, sem correr o risco de acordar a meio do mesmo, como sei de casos em que, sem correr o risco de ser presa por algo que, na maioria dos casos - acredito, SIM - seria diferente se outras as condições, outro o tempo, outra a vida.

porque, SIM, acredito que mulher nenhuma aborte de bom grado.

porque, SIM, acredito que o aborto traz consequências não-discutidas à mulher que o faz, e acrescentar a isso o medo de ser descoberta, o medo de morrer, o medo de não ter dinheiro para, é escandaloso.... escandaloso.


não percebo por que não há, ainda, em portugal, como por essa europa fora, a educação sexual que ensina, previne, explica.

não percebo por que algumas pessoas enchem a boca a dizer que o aborto é um atentado à vida, mas não é da mulher que se corta por fora e por dentro que falam. assim mesmo. dentro, também. no sentir.

mas não é isso que se pergunta.
não é isso que importa agora.
agora já.
há muitas batalhas a travar
até que
e a pergunta
agora
é só uma.

"Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras dez semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?"

SIM.
eu concordo.
eu digo SIM.






















....






(e o cúmulo de não poder votar porque vou estar fora de portugal?... em '98 a trabalhar na expo, este ano os baftas.... isto porque os emigrantes não têm voto na matéria no que respeita a este assunto. é como diz o outro" os emigrantes não precisam de votar - nos países em que vivem a despenalização existe".
.....
mas irrita-me
muito
não poder mesmo votar.)


quinta-feira, fevereiro 08, 2007

o agora e a vida. agora.

porque é 8 de fevereiro
sim
hoje.

abre os olhos
à volta de ti.
deixa o que.

é tempo de.















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(imagem: rebirth, de kevin j. gross)

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

era quase inverno.
eu lembro-me.
acordaste
preparaste a vida do dia
e disseste
pensaste
não
isto não chega,
já chega de.

pediste licença à dor
à dúvida
e ao passado que

criaste um sorriso de mar
viste nascer a lua nova
e quando viste para além da chuva

soubeste

"é tempo de viver o amor
é tempo de viver o desejo
é tempo de viver a vida.
agora,
eu,
a minha vida."

falaste o amor
sentiste a força
sorriste de vida

e nós soubemos
soubemos
contigo.

soubemos que tinhas de ir.

porque o teu amor é puro
e verdadeiro
e tu.

porque a força que nele vive
a certeza que respira
esse sem-fim de acreditar.

agora vais ser feliz
ver a vida "abensonhada"
abrir a alma
e voar.

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

ao jeito de "a criança e a vida"

"a doença é um bicho papão
que faz dos adultos meninos
e não espera a noite para fazer doer.
"
(nana, "5 anos")














....

terça-feira, janeiro 30, 2007

da incerteza: incapaz e impotente




















" O Hospital e a Praia


E eu caminhei no hospital
Onde o branco é desolado e sujo
Onde o branco é a cor que fica onde não há cor
E onde a luz é cinza

E eu caminhei nas praias e nos campos
O azul do mar e o roxo da distância
Enrolei-os em redor do meu pescoço
Caminhei na praia quase livre como um deus

Não perguntei por ti à pedra meu Senhor
Nem me lembrei de ti bebendo o vento
O vento era vento e a pedra pedra
E isso inteiramente me bastava

E nos espaços da manhã marinha
Quase livre como um deus eu caminhava

E todo o dia vivi como uma cega

Porém no hospital eu vi o rosto
Que não é pinheiral nem é rochedo
E vi a luz como cinza na parede
E vi a dor absurda e desmedida "


(sophia)





....



(imagem: the waiting line, de kyle houston cummings)

sexta-feira, janeiro 26, 2007

"stuck in the middle with"



















é durante o dia, até...

às vezes,
se não passeio pela côr desta cidade que amo,
se me fecho em casa
sem saber de mim
do que chega
ou da vida
lembro as ruas dessa outra
- que o é já ela -
cidade de mim.
lembro maneirismos
sinto-a
e ouço
em mim
todas
as línguas de si.

e tenho
tenho
saudades.
até mesmo
da própria vida.





....



(imagem: Missing You, de Raven La Fontaine)

sábado, janeiro 20, 2007

saldos















...

à venda no carrefour.

sexta-feira, janeiro 19, 2007

luta de.

sem saber
que futuro
se futuro
quem futuro,
lembro-me
confirmo-me
obrigo-me
a saber:
até chegar,
ele é nada
senão
o que se.

por maior o embate.
por maior o combate.
por maior o medo.

















ainda
ainda
um dia de cada vez.










....






(imagem: Not Giving Up, de "IgaNinja")

quarta-feira, janeiro 17, 2007

"i think you better go ahead"













" Run for the hills before they burn
Listen to the sound of the world
Then watch it turn
but shake a little
Sometimes I'm nervous
when I talk
I shake a little
Sometimes I hate the line I walk

I just wanna show you what I know
And catch you when the current lets you go

Or should I just get along with myself
I never did get along with everybody else























I've been trying hard to do what's right
But you know I could stay here
All night
And watch the clouds fall from the sky "

(the killers, this river is wild)









....







(imagem: "emptiness", de lollipop)