segunda-feira, junho 25, 2007

só (n)isto.









pegar em mim e ir.

ir?.....

partir da dor, do presente,
partir à procura de ar?
partir virada para trás,
partir sem caminhar.

confiar dentro e fora?
respirar em mim sem os outros?

e se?........
e se.




agora eu não sei que fazer
sentir
viver
pensar.
agora eu não sei
como
com quem
para onde
continuar.

e agora.....
"agora estou gelada.
gelada. "


e sinto que me afogam
às vezes
as minhas
outras
mãos.
debaixo d'água.
onde tudo era
era
tão mais
bonito.

antes.

quando a vida se vivia
de olhos abertos.
a respirar.





(música "debaixo d'água / agora", de arnaldo antunes / titãs, por bethânia.
imagem: ffion waits, de jackie morris)

sexta-feira, junho 22, 2007

na voz de bethânia, a vivência dos dias.

" debaixo d' água tudo era mais bonito
mais azul mais colorido
só faltava respirar

mas tinha que respirar


debaixo d'água se formando como um feto
sereno confortável amado completo
sem chão sem teto sem contato com o ar

mas tinha que respirar


todo dia
todo dia, todo dia
todo dia
todo dia, todo dia
todo dia


debaixo d'água por encanto sem sorriso e sem pranto
sem lamento e sem saber o quanto
esse momento poderia durar

mas tinha que respirar


debaixo d'água ficaria para sempre ficaria contente
longe de toda gente para sempre
no fundo do mar

mas tinha que respirar


todo dia
todo dia, todo dia
todo dia
todo dia, todo dia
todo dia


debaixo d'água protegido salvo fora de perigo
aliviado sem perdão e sem pecado
sem fome sem frio sem medo sem vontade de voltar

mas tinha que respirar


debaixo d'água tudo era mais bonito
mais azul mais colorido
só faltava respirar

mas tinha que respirar


todo dia

















agora que agora é nunca
agora posso recuar
agora sinto minha tumba
agora o peito a retumbar

agora a última resposta
agora quartos de hospitais
agora abrem uma porta
agora não se chora mais

agora a chuva evapora
agora ainda não choveu
agora tenho mais memória
agora tenho o que foi meu

agora passa a paisagem
agora não me despedi
agora compro uma passagem
agora ainda estou aqui

agora sinto muita sede
agora já é madrugada
agora diante da parede
agora falta uma palavra

agora o vento no cabelo
agora toda minha roupa
agora volta pro novelo
agora a língua em minha boca

agora meu avô já vive
agora meu filho nasceu
agora o filho que não tive
agora a criança sou eu

agora sinto um gosto doce
agora vejo a cor azul
agora a mão de quem me trouxe
agora é só meu corpo nu

agora eu nasço lá de fora
agora minha mãe é o ar
agora eu vivo na barriga
agora eu brigo pra voltar

agora...

agora...

agora. "

(Arnaldo Antunes / Titãs)





debaixo d'água
o visito.

no mar
em vida
o ouço
o sei
o sinto
sobre a vontade de chorar.

mas lembro-me
sempre
de respirar.


e lembro-o
sempre
no que sou eu.


mas agora
agora
eu não sei dizer
saber
ainda
que o meu pai morreu.


















.....









...











agora?


(imagens de hau maru (fallen into darkness) e ana nicolau)

segunda-feira, junho 18, 2007

"LA pIAZZA È MIA, La PIAZZA È MiA..."


a dor é minha.
minha, minha, minha, minha, minha, minha, minha.
tão minha
tão dor
tão dentro
que a não partilho
com ninguém.

nem mesmo comigo.





























....






mas



eu



agora







queria.














.....






:,o(


(imagem de guayasamin)

terça-feira, junho 12, 2007

limbo final.

hoje à noite

as quatro crianças

abrem o escuro
nos olhos

e apertam o choro
nas mãos.

para sempre.

terça-feira, junho 05, 2007

exorcismo.










.....




livro-me de (outras) dores.

parto delas
para não ter
nunca mais
que partir de mim.





[montagem: abandono, de ana nicolau - 27.março.2007
música: window, de the album leaf
poemas: sophia de mello breyner andresen, por luís miguel cintra
imagens: peter kozikowski, walfran guedes, gustav klimt, elena vasilieva, isabel faria, philip kaufman, rodin, munch, guayasamin, noronha da costa, stanley kubrick, desiree dolron, eugeny kozhevnikov, graça morais, entre outros (nomes de autores não mencionados nas páginas onde os encontrei) ]

sexta-feira, junho 01, 2007

criança.

tu não sabes
– não sabes ainda,
não sabes já –
e por isso eu vou-te contar.

eu agora vou contar-te tudo.



tu és um menino.

tu, assim, homem feito.

e és o menino com mais pais e mães que eu conheço.
porque todos os que aqui vêm e te olham
sabem e sentem a quase vergonha de não saber calar o choro que se não ouve,
as lágrimas que se não vêem,
o queixar que se não entende,
intraduzível de coragem e força.

todos
os que vêm e os que não
– a dor é tão diferente em cada um de nós... –
te queriam curar de quem não és,
embalar-te,
pegar-te pela mão e levar-te deste quarto de paredes brancas,
cada centímetro gasto pelos olhos de quem não aguenta mais ver,
cada milímetro percorrido no desespero de parar o sofrer
– essa qualquer porta secreta que alguém teima em esconder.

....

não se chora.

não choramos.

aqui.

mas a verdade
sabes
é que há dias
como hoje
em que é tão difícil não chorar...
como se as lágrimas traissem a força
que vives
tu.

chego a cadeira mais perto de ti

tu não vês, mas todos o fazemos,
todos os dias,
quando chegamos
- às vezes ser só um relevo na parede que olhas
ainda
quando abres os olhos.
que importa isso?
a vida é também.


olho-te enquanto dormes.

franzes os olhos,
fecha-los assim com muita força às vezes,
como se alguém te fizesse mal no meio da confusão
sonhada
que te tira e leva à realidade
sem caminho nenhum.
verdadeiro.

(se eu apanho esses sonhos que te não dão tréguas,
vou fazê-los
vir ver,
viver,
para saberem bem o que.)

ouço-te respirar.

lágrimas à beira de mim.

mas não choro.

não choramos.

como se as lágrimas caissem para dentro, aqui neste sítio onde se vive ao contrário.
onde se vê tanto
tão dentro...
vê-se para além do corpo, para além do tempo, esse relógio a quem partiste os ponteiros, mas que ainda assim teima em passar... ou assim ouves dizer.



falas-me de dentro do sonho.

dizes que é perto,
mas que eu não sou capaz.

tratas-me pelo meu nome.

perguntas se sei fazer as palavras.

eu digo que não.

e elas a atropelarem-se dentro
– há tanto que te quero dizer,
mas tão pouco o direito que sinto de abrir sequer a boca...
que sei eu do que?
nós só sabemos nada.

vou pensando nisto,
e tu vais dizendo
menos, menos palavras...

e eu não sei o que.

não sei mesmo como te ajudar,
tu menino,
criança exausta a quem o sonho rouba o descanso,
a quem a vida rouba a vida,
um monstro de forma curva a apoderar-se de ti a cada segundo que passa,
por mais que me sente sobre o tempo para o obrigar a deixar-se parar.

mas, olha, eu acredito em contos de fadas.

e é assim que sei que os dragões existem.
é assim que sei que os podemos vencer.
olha o labirinto do fauno – era “só” uma criança, como tu agora....

e tu hás-de ser príncipe, também, de um reino encantado,
onde vais proibir a cor branca nas paredes,
o cheiro ao que não se sabe,
o constante passar do tempo parado.


....

alteza menina,
eu lhe garanto a derrota do dragão da dor, do gemido, da náusea, da vida que não é vida.
se calhar de uma só forma, alteza humana...
se calhar sem ser se calhar.

por maior a dor
de imaginá-lo
eu te prometo
menino
que tudo há-de mudar.