no tempo que sucede ao tempo.
"vai parecer que eu estou morto e não é verdade..."
foi há um mês.
um mês exacto.
"to the day", aqui se diz......
estava claro.
a luz entrava pela janela do quarto branco
onde as enfermeiras te cuidavam.
eu esperei.
esperei à porta.
vi pela frincha o corpo que não eras tu
e doeu-me.
mesmo.
tanto como daquela vez em que te vi, herói, meu herói de coragem e bravura, a andares o máximo que ao longo daquele corredor de espera e choro que não havemos de esquecer nunca, nenhum de nós.
já aí o teu corpo não te obedecia. não te pertencia.
(tanto) depois disso, há um mês atrás, nada de teu te pertencia já.
porque foi (já) há um mês.
um mês desde esse dia em que me pediste liberdade.
em que me olhaste como quem não olha,
menino menino menino.
perdido da vida.
perdido de tudo.
a falares com a tua mãe, e eu a querer dizer-te que sim, que fosses com ela
- vai com ela, pai, não há mais nada para ti aqui.
não há mais vida cheia, há só vazio, dor, só confusão em ti.
vai, confia, abraça.
larga a minha, nossa mão.
vai.
...
..
foste.
.
era noite,
talvez manhã
- quem sabe o que, afinal?...
muitos meses antes do mês no dia de hoje
já eu chorava
aninhada nos braços do amor que então
então
porque sabia
eu sabia
- alguém não sabia? -
eu sabia
e perguntava
e ouvia
e chorava
e sabia do fim
sabia
eu sabia já
quando perguntava
a medo
por medo
"o meu pai está a morrer?....."
...
sabia.
que cada novo dia
era só mais um dia
em que te via
sabia
morrer.
na minha cabeça enleavam-se os "nunca mais",
e eu chorava
e sentia
já
e não queria
o perfume da morte,
esse de flores misturados sem cuidado nem cor
- um só cheiro que é cheiro nenhum.
e tudo isto tão antes do fim final....
e por isso não há - sabes? -, não há explicação, não há palavras para a coragem de ti, não há filme livro ou brisa que possam dizer, saber, o que foram aqueles dias, um atrás do outro, todos iguais, todos colados, todos piores, em ti.
ou.
que sei eu?
tudo me ficou nos olhos, dentro. desde aquele outro quarto, mais escuro, sim, mas tão mais cheio de espaço de
para
tudo.
tão mais tu, ainda...
tão mais livre.
tão mais vida.
porque nesse quarto, sabes, eu nunca soube o fim.
por mais que nele pensasse.
sentava-me à tua beira
e tu viravas-te para o meu lado
e confiavas-me o silêncio.
eu fazia-te festas.
porque nada mais.
e assim ficávamos
ficámos
muito
tanto
tempo....
e éramos tão família, ali, tão bonitos, quase, não fosse a sombra da dor, tão bonitos que me chora a lembrança, agora, o imutável nunca mais, mas nunca, ali, então, nunca - quero que o saibas porque, olha, eu acreditei sempre até onde era impossível acreditar, e ainda vivia um teu dia de cada vez, então - eu ali nunca te chorei.
por mais que agora.
o silêncio do desconhecido nos unia.
a impotência.
mais que isso a confiança
o amor
a não-desistência.
e tu soubeste, e eu soube, finalmente como se, nós soubemos o tudo que éramos um no outro.
e tudo isso,
pai,
me ficou para sempre.
.....
.
foi há um mês.
era dia.
estava sol.
era claro ainda quando te deixei no hospital sem querer.
quando chorei todo o caminho até longe.
quando não queria estar comigo nem ninguém.
quando disse
pela primeira vez
sobre ti
"não quero falar sobre isso".
porque já nada fazia sentido.
já nada me eras tu.
já nada fazia sentido
de ti para nós
de nós para ti
de ti para ti.
de madrugada
trocaste as voltas ao sentido
e foste.
deixaste o corpo e foste.
como o principezinho.
e a minha sorte, a minha sorte e arma contra a revolta da morte,
é ter sabido, a tempo e horas, pela boca desse um principezinho, que me disse, me lembrou ao ouvido "percebes? é que é muito longe e eu não posso levar este corpo... é pesado demais..."
......
....
pois.
.
é só que......
......
parece-me só tempo demais
que tenha sido
há já um mês
(e tanto tempo antes disso...)
que te tenha visto
e ouvido
sem um adeus
pela ultima vez.


























