parto delas para não ter nunca mais que partir de mim.
[montagem: abandono, de ana nicolau - 27.março.2007 música: window, de the album leaf poemas: sophia de mello breyner andresen, por luís miguel cintra imagens: peter kozikowski, walfran guedes, gustav klimt, elena vasilieva, isabel faria, philip kaufman, rodin, munch, guayasamin, noronha da costa, stanley kubrick, desiree dolron, eugeny kozhevnikov, graça morais, entre outros (nomes de autores não mencionados nas páginas onde os encontrei) ]
tu não sabes
– não sabes ainda,
não sabes já –
e por isso eu vou-te contar.
eu agora vou contar-te tudo.
tu és um menino.
tu, assim, homem feito.
e és o menino com mais pais e mães que eu conheço.
porque todos os que aqui vêm e te olham
sabem e sentem a quase vergonha de não saber calar o choro que se não ouve,
as lágrimas que se não vêem,
o queixar que se não entende,
intraduzível de coragem e força.
todos
os que vêm e os que não
– a dor é tão diferente em cada um de nós... –
te queriam curar de quem não és,
embalar-te,
pegar-te pela mão e levar-te deste quarto de paredes brancas,
cada centímetro gasto pelos olhos de quem não aguenta mais ver,
cada milímetro percorrido no desespero de parar o sofrer
– essa qualquer porta secreta que alguém teima em esconder.
....
não se chora.
não choramos.
aqui.
mas a verdade
sabes
é que há dias
como hoje
em que é tão difícil não chorar...
como se as lágrimas traissem a força
que vives
tu.
chego a cadeira mais perto de ti
tu não vês, mas todos o fazemos,
todos os dias,
quando chegamos
- às vezes ser só um relevo na parede que olhas
ainda
quando abres os olhos.
que importa isso?
a vida é também.
olho-te enquanto dormes.
franzes os olhos,
fecha-los assim com muita força às vezes,
como se alguém te fizesse mal no meio da confusão
sonhada
que te tira e leva à realidade
sem caminho nenhum.
verdadeiro.
(se eu apanho esses sonhos que te não dão tréguas,
vou fazê-los
vir ver,
viver,
para saberem bem o que.)
ouço-te respirar.
lágrimas à beira de mim.
mas não choro.
não choramos.
como se as lágrimas caissem para dentro, aqui neste sítio onde se vive ao contrário.
onde se vê tanto
tão dentro...
vê-se para além do corpo, para além do tempo, esse relógio a quem partiste os ponteiros, mas que ainda assim teima em passar... ou assim ouves dizer.
falas-me de dentro do sonho.
dizes que é perto,
mas que eu não sou capaz.
tratas-me pelo meu nome.
perguntas se sei fazer as palavras.
eu digo que não.
e elas a atropelarem-se dentro
– há tanto que te quero dizer,
mas tão pouco o direito que sinto de abrir sequer a boca...
que sei eu do que?
nós só sabemos nada.
vou pensando nisto,
e tu vais dizendo menos, menos palavras...
e eu não sei o que.
não sei mesmo como te ajudar,
tu menino,
criança exausta a quem o sonho rouba o descanso,
a quem a vida rouba a vida,
um monstro de forma curva a apoderar-se de ti a cada segundo que passa,
por mais que me sente sobre o tempo para o obrigar a deixar-se parar.
mas, olha, eu acredito em contos de fadas.
e é assim que sei que os dragões existem.
é assim que sei que os podemos vencer.
olha o labirinto do fauno – era uma criança, como tu agora....
e tu hás-de ser príncipe, também, de um reino encantado,
onde vais proibir a cor branca nas paredes,
o cheiro ao que não se sabe,
o constante passar do tempo parado.
....
alteza menina,
eu lhe garanto a derrota do dragão da dor, do gemido, da náusea, da vida que não é vida.
se calhar de uma só forma, alteza humana...
se calhar sem ser se calhar.
por maior a dor
de imaginá-lo
eu te prometo
menino
que tudo há-de mudar.
reencontro amigos de há muito. os que há muito não via e os que o são a cada dia. reencontro-os, um por um. a cada encontro por mais breve fazem-me sentir demonstram-me relembram-me a força mágica da sua nossa amizade. sei com quem conto. mais que isso, sei com quem posso contar. sempre. para além de tudo.
(a vida ensina-nos tanto.....)
em cada um de nós se acumulam problemas. a realidade afasta-nos. assim se justificam os que. sim, tenta. a realidade tenta afastar-nos. mas permanecemos teimosos verdadeiros quem somos. nós que somos permanecemos. na amizade. no equilíbrio. (agora precisas mais tu. agora preciso mais eu...) na entrega. no olhar um pelo outro. um para o outro. para além de tudo.
porque fazemos as palavras entregamos o olhar a presença o carinho. a força partilhada na certeza de não estarmos sós. nós, força de vida. para a vida. juntos. em amizade. para além de tudo.
a vocês meus amigos de sempre que são minha família tanto e também, a ti família de mim tanto e sempre amiga, o meu obrigada sem tamanho pela vida nevertheless em tudo isto. pela força que para eles terei também mais ainda como que teimosia naquilo que é o dia de hoje.
" time is never time at all you can never ever leave without leaving a piece of youth and our lives are forever changed we will never be the same the more you change the less you feel believe, believe in me, believe that life can change, that you're not stuck in vain we're not the same, we're different tonight tonight, so bright tonight
and you know you're never sure but you're sure you could be right if you held yourself up to the light and the embers never fade in your city by the lake the place where you were born believe, believe in me, believe in the resolute urgency of now and if you believe there's not a chance tonight tonight, so bright tonight
we'll crucify the insincere tonight we'll make things right, we'll feel it all tonight we'll find a way to offer up the night tonight the indescribable moments of your life tonight the impossible is possible tonight
no 2º aniversário destes marulhos aletrados, uso as palavras de então, como que um obrigada a ela, uma partilha com todos os que.
porque este é para mim um meme* que tento tento muito
lembrar
sentir
saber
todos os dias.
" O Sonho
Pelo Sonho é que vamos, comovidos e mudos. Chegamos? Não chegamos? Haja ou não haja frutos, pelo Sonho é que vamos.
Basta a fé no que temos. Basta a esperança naquilo que talvez não teremos. Basta que a alma demos, com a mesma alegria, ao que desconhecemos e ao que é do dia-a-dia.
Chegamos? Não chegamos?
- Partimos. Somos. Vamos. "
...
obrigada a todos os que visitam esta praia e nela generosamente desenham ondas de palavras.
uma semana cheia de sonhos para todos.
mais que isso que todos os dias vos sorriam na coragem para sonhar.
por mais que doa impotente e cansada a realidade delirante.
por mais que sangre gota a gota uma essa desilusão constante.
por maior o abandono frio em vida, arrepiante.
...
pelo sonho iremos vamos sempre.
(meme: Um *meme é um "gen ou gene cultural" que envolve algum conhecimento que passas a outros contemporâneos ou a teus descendentes. Os memes podem ser ideias ou partes de ideias, línguas, sons, desenhos, capacidades, valores estéticos e morais, ou qualquer outra coisa que possa ser aprendida facilmente e transmitida enquanto unidade autónoma. Simplificando: é um comentário, uma frase, uma ideia que rapidamente é propagada pela Web, usualmente por meio de blogues. O neologismo "memes" foi criado por Richard Dawkins dada a sua semelhança fonética com o termo "genes".)
(poema de sebastião da gama. imagens: rosa meditativa, de salvador dali e la grand famille, de rené magritte.)
esta música - com tudo o que é vai sendo foi e sabe o mar o que ou quando será - dá-me assim gana de ser vida...
("it's yours if you hurry you got still enough time and you don't need no ticket and you don't pay no fee because that was the river and this is the sea")
cerrar os dentes correr sem fim romper correntes dentro de mim
vencer segredos viver quem sou beijar os medos de quem não ficou
sorrir, desfazer o muro enfrentar morte e escuro inventar-me a cada ferida
erguer-me em força e vontade não ter dono nem saudade e vingar, honrar, a vida
....
" these things you keep you better throw them away you wanna turn your back on your soulless days once you were tethered and now you are free once you were tethered well now you are free that was the river this is the sea
now if you're feelin' weary if you've been alone too long maybe you've been suffering from a few too many plans that have gone wrong and you're trying to remember how fine your life used to be running around banging your drum like it's 1973 well that was the river this is the sea
now you say you got trouble you say you got pain you say you got nothing left to believe in nothing to hold on to nothing to trust nothing but chains you've been scouring your conscience raking through your memory scouring your conscience raking through your memory butthat was the river this is the sea
now i can see you wavering as you try to decide you've got a war in your head and it's tearing you up inside you're trying to make sense of something that you just don't see trying to make sense now and you know that you once held the key but that was the river this is the sea
now i hear there's a train it's coming on down the line it's yours if you hurry you've got still enough time and you don't need no ticket and you don't pay no fee no you don't need no ticket you don't pay no fee because that was the river and this is the sea that was the river this is the sea that was the river this is the sea that was the river river river river river river river and this is the sea
sea.....
sea....
behold the sea "
.
e ouço marulhos de vida a cada acorde.
"porque um só tempo é o nosso."* (o rio já lá vai.) "e o tempo é hoje."*
comecei este blog sem razão única ou definida. aos poucos sem que por isso desse tornou-se como que um diário. desses de confidência, onde escrevo o que sinto o que acho saber o que quero lembrar.
porque os tempos mudaram e mudei também eu - eu que agora acho tão bonito tão humano (e saudável...) a partilha de nós - esse diário partilha-se. parte dele. parte de mim. partilhada.
...
por isso tanto me tocou comoveu enterneceu que ela me tivesse escolhido como um dos blogs que a faz pensar. porque o dela o faz a mim. como me faz sentir. viver em poesia a vida.
como sinal de gratidão - porque nada mais sei - o logotipo aqui ao lado a lembrar-me sempre a bondade das suas ondas quando escuta marulhos. quando se senta na praia e os fica a ouvir. a lembrar-me sempre esse seu espaço, onde deixa faz voar quem por lá passe.
....
era suposto eu escolher cinco blogs que mo façam a mim.......
não consigo.
são demasiados. há demasiadas asas demasiados céus por essa internet fora.
mas porque não quero "guardar" este "prémio" para mim, nomeio sim um blog.
sem esse blog este não existiria.
nesse blog com esse blog pensa-se. sente-se. aprende-se. vive-se.
nesse blog uma rapariga que foi mãe e não deixou por isso de ser ela.
uma mãe que ama mas não cega. que abraça mas liberta.
" monday finds you like a bomb that's been left ticking there too long - you're bleeding some days there's nothing left to learn from the point of no return - you're leaving
hey hey i saved the world today everybody's happy now the bad thing's gone away and everybody's happy now the good thing's here to stay - please let it stay
theres a million mouths to feed and i've got everything i need - i'm breathing and there's a hurting thing inside but i've got everything to hide - i'm grieving
hey hey i saved the world today everybody's happy now the bad thing's gone away and everybody's happy now the good thing's here to stay - please let it stay "
(eurythmics, i saved the world today)
...
canto vivo sozinha por uns dias neste espaço que também me é casa. que volta a sê-lo. por mais diferente. aquela a que o filho sempre. aquela que "no matter what". aquela onde uma mãe lambe as feridas a suas crias e as ensina e ajuda a caminhar de novo. por seu próprio pé. lhes dá asas para que voem sós e lhes rega as raízes, também.
e sei sinto a sorte que tenho de ter sempre como porto de abrigo esta casa canto de mim.
também por isso sou feliz. não posso não o ser. há isto, há aquilo, e o isto é tão grande, tão sem tamanho, tão injusto de dor... e o aquilo magoa tanto, é tão dentro, tão injusto de ausência... mas não posso dizer que não sou feliz.
meu pai sorri dentro nos olhos por mais sem força por mais sem mostra ainda quando sente o amor.
isso faz-me sorrir ainda
ser ainda
com ele por ele vida.
....
e às vezes invade-me assim este amor todo pela vida e os outros todos os outros que vivem e não que escondem e não que aceitam e não. se aceitam. e não.
às vezes ando assim pela rua e é como se de cada ser que cruza nossos caminhos emanasse uma luz tão imensa de si, tão bonita de vida, tão côr de nós....
penso na dor. sim. sinto-a. tanto.
mas. a vida.
.....
e eu queria salvar o mundo. fazer de todos os dias abril, dentro. a felicidade de ser livre. a liberdade para ser feliz. sem o medo. sem muros ou defesas.
eu queria mesmo salvar o mundo. abraçá-lo. embalá-lo.
abri-lo por dentro ir ao mais centro dos centros e plantar a felicidade.
aguardar a estrela de alba e vê-lo acordar de vida. em liberdade.
segunda-feira, abril 30, 2007
continuo sem pertencer.
os sorrisos de estranhos nos espaços que cruzo, a bondade de quem não conheço, curam como abraço amigo - salvação que a ninguém peço.
se começasse a chover o alívio era nenhum: agora, com a chuva forte, o terror entra nos olhos, vai à janela, olha as gotas que doem no vidro, ouve no seu desespero a dúvida cujo fim se teme ou talvez anseie, sem saber o que, ainda sem saber, condenados todos a nunca saber o que querer para aquele cujos dias são contados marcados pela luz do dia e dos olhos que chegam e o escuro da noite que os leva para longe.
se somos divinos, por que não imortais? para quê o sofrimento de quem não aguenta - aguentando - mais?
...
confundo-me. revolto-me. pacifico, sem calar, gritos dores medos abandonados confusos desesperados a esperar ainda por mim.
...
continuo sem pertencer.
mas recuso de alma e vida a entrega egoista a meu próprio sofrer.
de lágrimas livres nos olhos e um arrepio de vida viva no coração, eu hoje vou sorrir e pensar em ti.
levo-te comigo em mim para além das paredes brancas castrantes dolorosas sufocantes desse quarto de hospital. para gritarmos celebrarmos cantarmos juntos. como se antes. como se nada. para sempre.
envio-te paz. abraço-te em tanta paz, toda esta que me enche, vinda do amor a tudo o que me rodeia, que me é vida maior que tudo o demais.
andas tão perdida que te cegas do espelho, e pensas que já te não leva para terras longe, tão perto, onde tudo é lua e mar, mar e lua, e a vontade do que se quer é regra para que aconteça a vida. abre o medo e olha em volta: o mar ecoa ainda dentro da concha fechada em ti. a lua marulha-te os sonhos no sal dos olhos que reconheci. e existem. sempre. assim. no que és, dentro e fora, por mais que te falte o caminho agora, por mais que o lodo te sufoque a vontade de lutar e viver. um porto que já não abriga não é o fim – é transformação, amanhecer. o sol que então te cega é o mesmo que te há-de aquecer. e os passos que não sabes de cor guiar-te-ão o anoitecer.
dos teus braços nascem ramos que julgas condenados, amaldiçoados, perdidos da chuva e do sol. não. ergue-os, sente o sol que te aquece o rosto marcado pelo cansaço da vida, deixa-te cair sobre a terra e sente o rio, adormecida. respira fundo, respira o mundo, respira a vida que te lateja nas veias, raízes, certezas de ti.
eu sei quem és. sei que medos o presente te traz. mas sei, mais do que isso, sei do és capaz.
acalma o dentro. lembra e deixa fluir a beleza do amor, por ti e em ti. porque é só isso a vida. e porque vives para ser feliz. nada ninguém senão tu pode libertar-te da prisão em que te guardas. que é só tua. nada senão tu, livre e em amor.
...
sei que o escuro, gasto e velho, te assombra a vida futura. que o desespero que também vivi é luta injusta de tão dura.
mas abre uma nesga do espelho, deixa entrar o canto do mar! levanta-te no esplendor de ti, renasce, onda, em teu rebentar!
amanhã, ao clarear, sorri de felicidade divina - acolhe o mundo no teu quarto.
sem o medo, sem vacilar, goza a vida em amor, menina, feliz em teu próprio parto.
sei que não nasceste ainda, mas como diz o poeta “em qualquer aventura, o que importa é partir”, e tu partiste já para te juntares a nós nesta vida que, diga-se o que se disser, digam-te o que disserem, é mesmo muito boa e bonita.
falei-te do poeta porque sei que não vai ser preciso muito tempo até que aprendas a palavra poesia, que a sintas no sangue, no sentir, no respirar, como o teu pai.
o teu pai, esse crescido sempre menino, há-de ensinar-te a poesia. ou talvez não ensinar-te, porque não é assim que ela se aprende, mas há-de acarinhar-te com o sorriso do vinicius, do pablo, do drummond, da sophia ou do eugénio, entre tantos outros. e hás-de, tu também, tratá-los por tu, pelo primeiro nome, esses amigos que nunca conheceremos, mas que a nós parecem conhecer tão bem. como há-de embalar-te ao som da elis, do chico, do tom, do toquinho, e tantos outros que te pintarão os sonhos com a música da poesia, com as suas próprias palavras, e as desses outros que nos dão a magia da vida de bandeja, mesmo quando a não vemos nós, meros e especiais mortais, que com eles encontramos a felicidade numa nesga de mar, num pedaço de fruta, ou num abraço amigo.
a amizade, pequenino, também ele ta há-de ensinar, e que professor vais ter! teu pai menino é daqueles amigos que ficam – um dia hás-de saber também das pessoas que não passam.... -, seja para abrir a janela que dá para esse mar, para por nós colher essa fruta, ou para escrever num pedaço de papel um qualquer poema que nos fará voar mais alto que nós próprios sonhámos ser capazes de fazer.
falo-te pouco da tua mãe – peço-te desculpa por isso – porque a não conheço tão bem. mas não duvides que a sorte que tens é mesmo muito, muito grande. mesmo não a conhecendo pelo sentir, como a esse AMIGO que é o teu pai, posso dizer-te uns segredos, que o não são, sobre ela:
a tua mãe, pequenino – sim, como o teu pai. e é tão bonito, o seu amor, também por isso... –, canta quando ouve a palavra liberdade, luta pela justiça como se não soubesse não o fazer, sorri lágrimas felizes quando se fala em abril. é menina, também. nenhum deles se deixou esquecer no caminho para a vida adulta. já viste a sorte que tens?....
por isso, pequenino – porque, não sei porquê, sinto-te menino, sabendo que se fores menina o amor, a partilha, o sonho, serão iguais -, mais que dar os parabéns aos teus pais, é a ti que congratulo (que palavra difícil, esta... não precisas de a aprender já, está bem?...). pelos pais amigos meninos que já tens. por tudo o que és já neles.
vem. podes vir quando for, seguro de que te aguardam de sorriso nos olhos, ansiosos por te receber e embrulhar em amor - maravilhados, maravilhosos, de vida em flor.
arrumo bem os sentires, calo a (outra) dor, engulo o (outro) medo, sufoco a (outra) morte, e vou.
vou agarrar-te a mão vou olhar os teus olhos dar-te os meus a olhar.
vou enchê-los de toda a côr todo o sorriso toda a força que agora falta e fazê-la renascer para ti. em ti.
levar-te a vida levar-te o mar levar-te o mundo que te escapa como gotas que não doseias. que já não podes controlar.
levantar-te dessa cama salvar-te o corpo que não sei arrancar-te à tristeza pesada como lama mostrar-te os lugares que por ti abracei.
quero dançar contigo a dança dos relógios antigos.
por isso hei-de aproximar a cadeira da cama. e hei-de fazer-te festas olhar-te a medo analisar cada marca cada diferença - tu para além de mim para além de tudo nesse sítio só teu de fantasmas medos e desmesurada coragem.
...
a verdade é que tenho muita vergonha do nada que posso fazer. de verdade. de certeza. qualquer que.
a verdade é que me choca de maneira cortante - como se o não soubesse tão dentro de mim - este nada que somos no tudo que fomos, esta alma sem peso na vertigem do fim.
....
(imagem: graça morais, da série "as escolhidas" - sépia sobre papel)