segunda-feira, junho 25, 2007

só (n)isto.









pegar em mim e ir.

ir?.....

partir da dor, do presente,
partir à procura de ar?
partir virada para trás,
partir sem caminhar.

confiar dentro e fora?
respirar em mim sem os outros?

e se?........
e se.




agora eu não sei que fazer
sentir
viver
pensar.
agora eu não sei
como
com quem
para onde
continuar.

e agora.....
"agora estou gelada.
gelada. "


e sinto que me afogam
às vezes
as minhas
outras
mãos.
debaixo d'água.
onde tudo era
era
tão mais
bonito.

antes.

quando a vida se vivia
de olhos abertos.
a respirar.





(música "debaixo d'água / agora", de arnaldo antunes / titãs, por bethânia.
imagem: ffion waits, de jackie morris)

sexta-feira, junho 22, 2007

na voz de bethânia, a vivência dos dias.

" debaixo d' água tudo era mais bonito
mais azul mais colorido
só faltava respirar

mas tinha que respirar


debaixo d'água se formando como um feto
sereno confortável amado completo
sem chão sem teto sem contato com o ar

mas tinha que respirar


todo dia
todo dia, todo dia
todo dia
todo dia, todo dia
todo dia


debaixo d'água por encanto sem sorriso e sem pranto
sem lamento e sem saber o quanto
esse momento poderia durar

mas tinha que respirar


debaixo d'água ficaria para sempre ficaria contente
longe de toda gente para sempre
no fundo do mar

mas tinha que respirar


todo dia
todo dia, todo dia
todo dia
todo dia, todo dia
todo dia


debaixo d'água protegido salvo fora de perigo
aliviado sem perdão e sem pecado
sem fome sem frio sem medo sem vontade de voltar

mas tinha que respirar


debaixo d'água tudo era mais bonito
mais azul mais colorido
só faltava respirar

mas tinha que respirar


todo dia

















agora que agora é nunca
agora posso recuar
agora sinto minha tumba
agora o peito a retumbar

agora a última resposta
agora quartos de hospitais
agora abrem uma porta
agora não se chora mais

agora a chuva evapora
agora ainda não choveu
agora tenho mais memória
agora tenho o que foi meu

agora passa a paisagem
agora não me despedi
agora compro uma passagem
agora ainda estou aqui

agora sinto muita sede
agora já é madrugada
agora diante da parede
agora falta uma palavra

agora o vento no cabelo
agora toda minha roupa
agora volta pro novelo
agora a língua em minha boca

agora meu avô já vive
agora meu filho nasceu
agora o filho que não tive
agora a criança sou eu

agora sinto um gosto doce
agora vejo a cor azul
agora a mão de quem me trouxe
agora é só meu corpo nu

agora eu nasço lá de fora
agora minha mãe é o ar
agora eu vivo na barriga
agora eu brigo pra voltar

agora...

agora...

agora. "

(Arnaldo Antunes / Titãs)





debaixo d'água
o visito.

no mar
em vida
o ouço
o sei
o sinto
sobre a vontade de chorar.

mas lembro-me
sempre
de respirar.


e lembro-o
sempre
no que sou eu.


mas agora
agora
eu não sei dizer
saber
ainda
que o meu pai morreu.


















.....









...











agora?


(imagens de hau maru (fallen into darkness) e ana nicolau)

segunda-feira, junho 18, 2007

"LA pIAZZA È MIA, La PIAZZA È MiA..."


a dor é minha.
minha, minha, minha, minha, minha, minha, minha.
tão minha
tão dor
tão dentro
que a não partilho
com ninguém.

nem mesmo comigo.





























....






mas



eu



agora



só



queria.














.....






:,o(


(imagem de guayasamin)

terça-feira, junho 12, 2007

limbo final.

hoje à noite

as quatro crianças

abrem o escuro
nos olhos

e apertam o choro
nas mãos.

para sempre.

terça-feira, junho 05, 2007

exorcismo.










.....




livro-me de (outras) dores.

parto delas
para não ter
nunca mais
que partir de mim.





[montagem: abandono, de ana nicolau - 27.março.2007
música: window, de the album leaf
poemas: sophia de mello breyner andresen, por luís miguel cintra
imagens: peter kozikowski, walfran guedes, gustav klimt, elena vasilieva, isabel faria, philip kaufman, rodin, munch, guayasamin, noronha da costa, stanley kubrick, desiree dolron, eugeny kozhevnikov, graça morais, entre outros (nomes de autores não mencionados nas páginas onde os encontrei) ]

sexta-feira, junho 01, 2007

criança.

tu não sabes
– não sabes ainda,
não sabes já –
e por isso eu vou-te contar.

eu agora vou contar-te tudo.



tu és um menino.

tu, assim, homem feito.

e és o menino com mais pais e mães que eu conheço.
porque todos os que aqui vêm e te olham
sabem e sentem a quase vergonha de não saber calar o choro que se não ouve,
as lágrimas que se não vêem,
o queixar que se não entende,
intraduzível de coragem e força.

todos
os que vêm e os que não
– a dor é tão diferente em cada um de nós... –
te queriam curar de quem não és,
embalar-te,
pegar-te pela mão e levar-te deste quarto de paredes brancas,
cada centímetro gasto pelos olhos de quem não aguenta mais ver,
cada milímetro percorrido no desespero de parar o sofrer
– essa qualquer porta secreta que alguém teima em esconder.

....

não se chora.

não choramos.

aqui.

mas a verdade
sabes
é que há dias
como hoje
em que é tão difícil não chorar...
como se as lágrimas traissem a força
que vives
tu.

chego a cadeira mais perto de ti

tu não vês, mas todos o fazemos,
todos os dias,
quando chegamos
- às vezes ser só um relevo na parede que olhas
ainda
quando abres os olhos.
que importa isso?
a vida é também.


olho-te enquanto dormes.

franzes os olhos,
fecha-los assim com muita força às vezes,
como se alguém te fizesse mal no meio da confusão
sonhada
que te tira e leva à realidade
sem caminho nenhum.
verdadeiro.

(se eu apanho esses sonhos que te não dão tréguas,
vou fazê-los
vir ver,
viver,
para saberem bem o que.)

ouço-te respirar.

lágrimas à beira de mim.

mas não choro.

não choramos.

como se as lágrimas caissem para dentro, aqui neste sítio onde se vive ao contrário.
onde se vê tanto
tão dentro...
vê-se para além do corpo, para além do tempo, esse relógio a quem partiste os ponteiros, mas que ainda assim teima em passar... ou assim ouves dizer.



falas-me de dentro do sonho.

dizes que é perto,
mas que eu não sou capaz.

tratas-me pelo meu nome.

perguntas se sei fazer as palavras.

eu digo que não.

e elas a atropelarem-se dentro
– há tanto que te quero dizer,
mas tão pouco o direito que sinto de abrir sequer a boca...
que sei eu do que?
nós só sabemos nada.

vou pensando nisto,
e tu vais dizendo
menos, menos palavras...

e eu não sei o que.

não sei mesmo como te ajudar,
tu menino,
criança exausta a quem o sonho rouba o descanso,
a quem a vida rouba a vida,
um monstro de forma curva a apoderar-se de ti a cada segundo que passa,
por mais que me sente sobre o tempo para o obrigar a deixar-se parar.

mas, olha, eu acredito em contos de fadas.

e é assim que sei que os dragões existem.
é assim que sei que os podemos vencer.
olha o labirinto do fauno – era uma criança, como tu agora....

e tu hás-de ser príncipe, também, de um reino encantado,
onde vais proibir a cor branca nas paredes,
o cheiro ao que não se sabe,
o constante passar do tempo parado.


....

alteza menina,
eu lhe garanto a derrota do dragão da dor, do gemido, da náusea, da vida que não é vida.
se calhar de uma só forma, alteza humana...
se calhar sem ser se calhar.

por maior a dor
de imaginá-lo
eu te prometo
menino
que tudo há-de mudar.

sexta-feira, maio 25, 2007

gratidão.



reencontro amigos de há muito.
os que há muito não via
e os que o são
a cada dia.
reencontro-os, um por um.
a cada encontro
por mais breve
fazem-me sentir
demonstram-me
relembram-me
a força
mágica
da sua
nossa
amizade.
sei com quem conto.
mais que isso,
sei com quem posso contar.
sempre.
para além de tudo.

(a vida ensina-nos tanto.....)

em cada um de nós
se acumulam problemas.
a realidade afasta-nos.
assim se justificam os que.
sim,
tenta.
a realidade tenta afastar-nos.
mas permanecemos
teimosos
verdadeiros
quem somos.
nós que somos
permanecemos.
na amizade.
no equilíbrio.
(agora precisas mais tu.
agora preciso mais eu...)
na entrega.
no olhar um pelo outro.
um para o outro.
para além de tudo.

porque fazemos as palavras
entregamos o olhar
a presença
o carinho.
a força partilhada
na certeza de não estarmos sós.
nós, força de vida.
para a vida.
juntos.
em amizade.
para além de tudo.

a vocês
meus amigos de sempre
que são minha família
tanto e também,
a ti
família de mim
tanto e sempre
amiga,
o meu obrigada
sem tamanho
pela vida
nevertheless
em tudo isto.
pela força
que para eles terei
também
mais ainda
como que teimosia
naquilo que é o dia de hoje.



















e há mesmo verdades
amizades
incontestáveis.

para além de tudo.

para o meu irmão.






















believing
every inch of the way.



" time is never time at all
you can never ever leave
without leaving a piece of youth
and our lives are forever changed
we will never be the same
the more you change the less you feel
believe, believe in me, believe
that life can change, that you're not stuck in vain
we're not the same, we're different tonight
tonight, so bright
tonight

and you know you're never sure
but you're sure you could be right
if you held yourself up to the light
and the embers never fade
in your city by the lake
the place where you were born
believe, believe in me, believe
in the resolute urgency of now
and if you believe there's not a chance tonight
tonight, so bright
tonight

we'll crucify the insincere tonight
we'll make things right, we'll feel it all tonight
we'll find a way to offer up the night tonight
the indescribable moments of your life tonight
the impossible is possible tonight

believe in me
as i believe in you
tonight "

(smashing pumpkins, tonight, tonight)

segunda-feira, maio 21, 2007

moi-même

no 2º aniversário
destes
marulhos
aletrados,
uso as palavras de então,
como que um
obrigada
a ela,
uma partilha
com todos
os que.

porque este é
para mim
um meme*
que tento
tento muito

lembrar

sentir

saber

todos os dias.



" O Sonho


Pelo Sonho é que vamos,
comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo Sonho é que vamos.

Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia-a-dia.

Chegamos? Não chegamos?

- Partimos. Somos. Vamos. "




























...




obrigada a todos os que visitam esta praia
e nela
generosamente
desenham
ondas de palavras.

uma semana
cheia de sonhos
para todos.

mais que isso
que todos os dias
vos sorriam
na coragem
para sonhar.

por mais que doa
impotente e cansada
a realidade delirante.

por mais que sangre
gota a gota
uma
essa
desilusão constante.

por maior o abandono
frio em vida,
arrepiante.

...


pelo sonho iremos
vamos
sempre.


























(meme: Um *meme é um "gen ou gene cultural" que envolve algum conhecimento que passas a outros contemporâneos ou a teus descendentes. Os memes podem ser ideias ou partes de ideias, línguas, sons, desenhos, capacidades, valores estéticos e morais, ou qualquer outra coisa que possa ser aprendida facilmente e transmitida enquanto unidade autónoma. Simplificando: é um comentário, uma frase, uma ideia que rapidamente é propagada pela Web, usualmente por meio de blogues. O neologismo "memes" foi criado por Richard Dawkins dada a sua semelhança fonética com o termo "genes".)

(poema de sebastião da gama.
imagens: rosa meditativa, de salvador dali e la grand famille, de rené magritte.)

sexta-feira, maio 11, 2007

aqui (n)o mar




esta música
- com tudo o que
é
vai sendo
foi
e sabe o mar o que
ou quando
será -
dá-me assim
gana
de ser vida...

("it's yours if you hurry
you got still enough time
and you don't need no ticket
and you don't pay no fee
because that was the river
and this is the sea")

cerrar os dentes
correr sem fim
romper correntes
dentro de mim

vencer segredos
viver quem sou
beijar os medos
de quem não ficou

sorrir, desfazer o muro
enfrentar morte e escuro
inventar-me a cada ferida

erguer-me em força e vontade
não ter dono nem saudade
e vingar, honrar, a vida



















....



" these things you keep
you better throw them away
you wanna turn your back
on your soulless days
once you were tethered
and now you are free
once you were tethered
well now you are free
that was the river
this is the sea


now if you're feelin' weary
if you've been alone too long
maybe you've been suffering from
a few too many
plans that have gone wrong

and you're trying to remember
how fine your life used to be

running around banging your drum
like it's 1973
well that was the river
this is the sea


now you say you got trouble
you say you got pain
you say you got nothing left to believe in
nothing to hold on to
nothing to trust
nothing but chains

you've been scouring your conscience
raking through your memory
scouring your conscience
raking through your memory
but that was the river
this is the sea


now i can see you wavering
as you try to decide
you've got a war in your head
and it's tearing you up inside

you're trying to make sense
of something that you just don't see

trying to make sense now
and you know that you once held the key
but that was the river
this is the sea


now i hear there's a train
it's coming on down the line
it's yours if you hurry
you've got still enough time
and you don't need no ticket
and you don't pay no fee

no you don't need no ticket
you don't pay no fee
because that was the river
and this is the sea
that was the river
this is the sea

that was the river
this is the sea

that was the river river river river river river river
and this is the sea


sea.....


sea....


behold the sea "
























.


e ouço
marulhos
de vida
a cada acorde.

"porque um só tempo é o nosso."*
(o rio já lá vai.)
"e o tempo é hoje."*


tempo de mar.















...













*manuel alegre
(imagens de ana nicolau)

segunda-feira, maio 07, 2007

no dia dos anos de minha avó, luz.

o susto da morte rápida
sem aviso
sem mais nada
é-me tão forte
e real
como este assistir
prolongado
à sua chegada
em câmara lenta.

por isso
pelo medo
do que podia
pelas pessoas
que seriam
pelo dia
que é
hoje
vou celebrar
sorrir
viver
cada segundo
de vida
viva.



























....








(imagem retirada de http://home.wxs.nl/~brouw724/enlightenment.html)

sábado, maio 05, 2007

marulhos partilhados

isto dos blogs tem que se lhe diga...

comecei este blog
sem razão
única
ou definida.
aos poucos
sem que por isso desse
tornou-se como que um diário.
desses de confidência,
onde escrevo o que sinto
o que acho saber
o que quero lembrar.

porque os tempos mudaram
e mudei também eu
- eu que agora
acho
tão bonito
tão humano
(e saudável...)
a partilha de nós -
esse diário partilha-se.
parte dele.
parte de mim.
partilhada.

















...

por isso tanto me tocou
comoveu
enterneceu
que
ela
me tivesse escolhido como
um
dos blogs
que a faz pensar.
porque o dela
o faz
a mim.
como me faz sentir.
viver
em poesia
a vida.

como sinal de gratidão
- porque nada mais sei -
o logotipo
aqui ao lado
a lembrar-me
sempre
a bondade das suas ondas
quando escuta marulhos.
quando se senta na praia
e os fica a ouvir.
a lembrar-me
sempre
esse seu espaço,
onde deixa
faz
voar
quem por lá passe.


....

era suposto eu escolher
cinco blogs
que mo façam a mim.......

não consigo.

são demasiados.
há demasiadas asas
demasiados céus
por essa internet fora.

mas porque não quero "guardar" este "prémio" para mim,
nomeio
sim
um blog.

sem esse blog
este não existiria.

nesse blog
com esse blog
pensa-se.
sente-se.
aprende-se.
vive-se.

nesse blog
uma rapariga
que foi mãe
e não deixou
por isso
de ser ela.

uma mãe que ama
mas não cega.
que abraça
mas liberta.

uma mulher que duvida
mas persiste.

uma menina que cresceu
mas sonha
sorri
criança.

www.aervilha.blogspot.com

this one's for you:




(imagem: natura, de ana nicolau)

quarta-feira, maio 02, 2007

canto de vida.












" monday finds you like a bomb
that's been left ticking there too long
- you're bleeding
some days there's nothing left to learn
from the point of no return
- you're leaving

hey hey i saved the world today
everybody's happy now
the bad thing's gone away
and everybody's happy now
the good thing's here to stay
- please let it stay

theres a million mouths to feed
and i've got everything i need
- i'm breathing
and there's a hurting thing inside
but i've got everything to hide
- i'm grieving

hey hey i saved the world today
everybody's happy now
the bad thing's gone away
and everybody's happy now
the good thing's here to stay
- please let it stay "


(eurythmics, i saved the world today)



...


canto
vivo
sozinha
por uns dias
neste espaço que também me é casa.
que volta a sê-lo.
por mais diferente.
aquela a que o filho sempre.
aquela que "no matter what".
aquela onde uma mãe lambe as feridas a suas crias
e as ensina e ajuda a caminhar de novo.
por seu próprio pé.
lhes dá asas para que voem
sós
e lhes rega as raízes,
também.

e sei
sinto
a sorte que tenho
de ter
sempre
como porto de abrigo
esta casa
canto
de mim.

também
por isso
sou feliz.
não posso não o ser.
há isto,
há aquilo,
e o isto é tão grande, tão sem tamanho, tão injusto de dor...
e o aquilo magoa tanto, é tão dentro, tão injusto de ausência...
mas não posso dizer que não sou feliz.

meu pai sorri dentro
nos olhos
por mais sem força
por mais sem mostra
ainda
quando sente o amor.

isso faz-me sorrir
ainda

ser
ainda

com ele
por ele
vida.

....


e às vezes invade-me assim este amor todo
pela vida e os outros
todos os outros
que vivem e não
que escondem e não
que aceitam e não.
se aceitam.
e não.

às vezes ando assim pela rua
e é como se
de cada ser
que cruza nossos caminhos
emanasse uma luz
tão imensa de si,
tão bonita de vida,
tão côr de nós....

penso na dor.
sim.
sinto-a.
tanto.

mas.
a vida.


.....







e eu queria salvar o mundo.
fazer de todos os dias abril, dentro.
a felicidade de ser livre.
a liberdade para ser feliz.
sem o medo.
sem muros ou defesas.

eu queria mesmo salvar o mundo.
abraçá-lo.
embalá-lo.

abri-lo por dentro
ir ao mais centro dos centros
e plantar a felicidade.

aguardar a estrela de alba
e vê-lo acordar de vida.
em liberdade.

segunda-feira, abril 30, 2007


















continuo sem pertencer.

os sorrisos de estranhos nos espaços que cruzo,
a bondade de quem não conheço,
curam como abraço amigo
- salvação que a ninguém peço.

se começasse a chover o alívio era nenhum:
agora,
com a chuva forte,
o terror entra nos olhos,
vai à janela,
olha as gotas que doem no vidro,
ouve no seu desespero a dúvida cujo fim se teme
ou talvez anseie,
sem saber o que,
ainda sem saber,
condenados
todos
a nunca saber o que querer
para aquele cujos dias são contados
marcados
pela luz do dia e dos olhos que chegam
e o escuro da noite que os leva para longe.

se somos divinos, por que não imortais?
para quê o sofrimento de quem não aguenta
- aguentando -
mais?


...



confundo-me.
revolto-me.
pacifico,
sem calar,
gritos dores medos
abandonados confusos desesperados
a esperar
ainda
por mim.


...



continuo sem pertencer.

mas recuso
de alma e vida
a entrega egoista
a meu próprio sofrer.















.









(imagem: ?, de guayasamin)

terça-feira, abril 24, 2007

abril na noite



de lágrimas
livres
nos olhos
e um arrepio
de vida
viva
no coração,
eu
hoje
vou sorrir
e pensar em ti.

levo-te comigo
em mim
para além das paredes
brancas
castrantes
dolorosas
sufocantes
desse quarto de hospital.
para gritarmos
celebrarmos
cantarmos
juntos.
como se antes.
como se nada.
para sempre.

sexta-feira, abril 20, 2007

à mulher que não sabe de si





envio-te paz.
abraço-te em tanta paz, toda esta que me enche, vinda do amor a tudo o que me rodeia, que me é vida maior que tudo o demais.

andas tão perdida que te cegas do espelho, e pensas que já te não leva para terras longe, tão perto, onde tudo é lua e mar, mar e lua, e a vontade do que se quer é regra para que aconteça a vida.
abre o medo e olha em volta: o mar ecoa ainda dentro da concha fechada em ti. a lua marulha-te os sonhos no sal dos olhos que reconheci.
e existem. sempre. assim. no que és, dentro e fora, por mais que te falte o caminho agora, por mais que o lodo te sufoque a vontade de lutar e viver.
um porto que já não abriga não é o fim – é transformação, amanhecer.
o sol que então te cega é o mesmo que te há-de aquecer.
e os passos que não sabes de cor guiar-te-ão o anoitecer.

dos teus braços nascem ramos que julgas condenados, amaldiçoados, perdidos da chuva e do sol.
não.
ergue-os, sente o sol que te aquece o rosto marcado pelo cansaço da vida, deixa-te cair sobre a terra e sente o rio, adormecida. respira fundo, respira o mundo, respira a vida que te lateja nas veias, raízes, certezas de ti.

eu sei quem és.
sei que medos o presente te traz.
mas sei,
mais do que isso,
sei do és capaz.

acalma o dentro.
lembra e deixa fluir a beleza do amor,
por ti e em ti.
porque é só isso a vida.
e porque vives para ser feliz.
nada
ninguém
senão tu
pode libertar-te da prisão em que te guardas.
que é só tua.
nada senão tu,
livre e em amor.


...




sei que o escuro, gasto e velho,
te assombra a vida futura.
que o desespero que também vivi
é luta injusta de tão dura.

mas abre uma nesga do espelho,
deixa entrar o canto do mar!
levanta-te no esplendor de ti,
renasce, onda, em teu rebentar!

amanhã, ao clarear,
sorri de felicidade divina -
acolhe o mundo no teu quarto.

sem o medo, sem vacilar,
goza a vida em amor, menina,
feliz em teu próprio parto.



























....









(imagem: resistence, de ana nicolau)

quarta-feira, abril 18, 2007

carta ao filho do menino que vai ser pai

querido pequenino,

benvindo.

sei que não nasceste ainda, mas como diz o poeta “em qualquer aventura, o que importa é partir”, e tu partiste já para te juntares a nós nesta vida que, diga-se o que se disser, digam-te o que disserem, é mesmo muito boa e bonita.

falei-te do poeta porque sei que não vai ser preciso muito tempo até que aprendas a palavra poesia, que a sintas no sangue, no sentir, no respirar, como o teu pai.

o teu pai, esse crescido sempre menino, há-de ensinar-te a poesia.
ou talvez não ensinar-te, porque não é assim que ela se aprende, mas há-de acarinhar-te com o sorriso do vinicius, do pablo, do drummond, da sophia ou do eugénio, entre tantos outros. e hás-de, tu também, tratá-los por tu, pelo primeiro nome, esses amigos que nunca conheceremos, mas que a nós parecem conhecer tão bem.
como há-de embalar-te ao som da elis, do chico, do tom, do toquinho, e tantos outros que te pintarão os sonhos com a música da poesia, com as suas próprias palavras, e as desses outros que nos dão a magia da vida de bandeja, mesmo quando a não vemos nós, meros e especiais mortais, que com eles encontramos a felicidade numa nesga de mar, num pedaço de fruta, ou num abraço amigo.

a amizade, pequenino, também ele ta há-de ensinar, e que professor vais ter! teu pai menino é daqueles amigos que ficam – um dia hás-de saber também das pessoas que não passam.... -, seja para abrir a janela que dá para esse mar, para por nós colher essa fruta, ou para escrever num pedaço de papel um qualquer poema que nos fará voar mais alto que nós próprios sonhámos ser capazes de fazer.

falo-te pouco da tua mãe – peço-te desculpa por isso – porque a não conheço tão bem. mas não duvides que a sorte que tens é mesmo muito, muito grande. mesmo não a conhecendo pelo sentir, como a esse AMIGO que é o teu pai, posso dizer-te uns segredos, que o não são, sobre ela:

a tua mãe, pequenino – sim, como o teu pai. e é tão bonito, o seu amor, também por isso... –, canta quando ouve a palavra liberdade, luta pela justiça como se não soubesse não o fazer, sorri lágrimas felizes quando se fala em abril. é menina, também. nenhum deles se deixou esquecer no caminho para a vida adulta.
já viste a sorte que tens?....

por isso, pequenino – porque, não sei porquê, sinto-te menino, sabendo que se fores menina o amor, a partilha, o sonho, serão iguais -, mais que dar os parabéns aos teus pais, é a ti que congratulo (que palavra difícil, esta... não precisas de a aprender já, está bem?...).
pelos pais
amigos
meninos
que já tens.
por tudo o que és
já
neles.



















vem.
podes vir quando for,
seguro de que te aguardam
de sorriso nos olhos,
ansiosos por te receber
e embrulhar
em amor -
maravilhados,
maravilhosos,
de vida
em flor.











....









(imagem: expecting my baby, de julio alejandro)

quinta-feira, abril 12, 2007

retorno.

" existence is a young child
moving through a lane
at night:

it wanted to
hold my
hand. "

(st. catherine of siena)


.







renasço na vida...

















em mim.











....









(imagem: rebirth, de ana nicolau)

quinta-feira, abril 05, 2007

tempo de vida.

hoje é dia de ir ver-te.

arrumo bem os sentires,
calo a
(outra)
dor,
engulo o
(outro)
medo,
sufoco a
(outra)
morte,
e vou.

vou agarrar-te a mão
vou olhar os teus olhos
dar-te os meus a olhar.

vou enchê-los de toda a côr
todo o sorriso
toda a força
que agora falta
e fazê-la
renascer
para ti.
em ti.

levar-te a vida
levar-te o mar
levar-te o mundo
que te escapa
como gotas que não doseias.
que já não podes controlar.

levantar-te dessa cama
salvar-te o corpo que não sei
arrancar-te à tristeza
pesada como lama
mostrar-te os lugares que por ti abracei.


quero dançar contigo a dança dos relógios antigos.



por isso hei-de aproximar a cadeira da cama.
e hei-de fazer-te festas
olhar-te a medo
analisar cada marca
cada diferença
- tu para além de mim
para além de tudo
nesse sítio só teu
de fantasmas
medos
e
desmesurada
coragem.


...




a verdade é que tenho muita vergonha
do nada que posso fazer.
de verdade.
de certeza.
qualquer que.

a verdade é que me choca
de maneira cortante
- como se o não soubesse
tão dentro de mim -
este nada que somos
no tudo que fomos,
esta alma sem peso
na vertigem do fim.



























....









(imagem: graça morais, da série "as escolhidas" - sépia sobre papel)

quarta-feira, abril 04, 2007

against all odds.

















nevertheless.







.......