
continuo sem pertencer.
os sorrisos de estranhos nos espaços que cruzo,
a bondade de quem não conheço,
curam como abraço amigo
- salvação que a ninguém peço.
se começasse a chover o alívio era nenhum:
agora,
com a chuva forte,
o terror entra nos olhos,
vai à janela,
olha as gotas que doem no vidro,
ouve no seu desespero a dúvida cujo fim se teme
ou talvez anseie,
sem saber o que,
ainda sem saber,
condenados
todos
a nunca saber o que querer
para aquele cujos dias são contados
marcados
pela luz do dia e dos olhos que chegam
e o escuro da noite que os leva para longe.
se somos divinos, por que não imortais?
para quê o sofrimento de quem não aguenta
- aguentando -
mais?
...
confundo-me.
revolto-me.
pacifico,
sem calar,
gritos dores medos
abandonados confusos desesperados
a esperar
ainda
por mim.
...
continuo sem pertencer.
mas recuso
de alma e vida
a entrega egoista
a meu próprio sofrer.
.
(imagem: ?, de guayasamin)
segunda-feira, abril 30, 2007
terça-feira, abril 24, 2007
abril na noite
de lágrimas
livres
nos olhos
e um arrepio
de vida
viva
no coração,
eu
hoje
vou sorrir
e pensar em ti.
levo-te comigo
em mim
para além das paredes
brancas
castrantes
dolorosas
sufocantes
desse quarto de hospital.
para gritarmos
celebrarmos
cantarmos
juntos.
como se antes.
como se nada.
para sempre.
marulho de nana às 22:55 5 ondas
búzio dentro da liberdade, da vida, das datas
sexta-feira, abril 20, 2007
à mulher que não sabe de si
envio-te paz.
abraço-te em tanta paz, toda esta que me enche, vinda do amor a tudo o que me rodeia, que me é vida maior que tudo o demais.
andas tão perdida que te cegas do espelho, e pensas que já te não leva para terras longe, tão perto, onde tudo é lua e mar, mar e lua, e a vontade do que se quer é regra para que aconteça a vida.
abre o medo e olha em volta: o mar ecoa ainda dentro da concha fechada em ti. a lua marulha-te os sonhos no sal dos olhos que reconheci.
e existem. sempre. assim. no que és, dentro e fora, por mais que te falte o caminho agora, por mais que o lodo te sufoque a vontade de lutar e viver.
um porto que já não abriga não é o fim – é transformação, amanhecer.
o sol que então te cega é o mesmo que te há-de aquecer.
e os passos que não sabes de cor guiar-te-ão o anoitecer.
dos teus braços nascem ramos que julgas condenados, amaldiçoados, perdidos da chuva e do sol.
não.
ergue-os, sente o sol que te aquece o rosto marcado pelo cansaço da vida, deixa-te cair sobre a terra e sente o rio, adormecida. respira fundo, respira o mundo, respira a vida que te lateja nas veias, raízes, certezas de ti.
eu sei quem és.
sei que medos o presente te traz.
mas sei,
mais do que isso,
sei do és capaz.
acalma o dentro.
lembra e deixa fluir a beleza do amor,
por ti e em ti.
porque é só isso a vida.
e porque vives para ser feliz.
nada
ninguém
senão tu
pode libertar-te da prisão em que te guardas.
que é só tua.
nada senão tu,
livre e em amor.
...
sei que o escuro, gasto e velho,
te assombra a vida futura.
que o desespero que também vivi
é luta injusta de tão dura.
mas abre uma nesga do espelho,
deixa entrar o canto do mar!
levanta-te no esplendor de ti,
renasce, onda, em teu rebentar!
amanhã, ao clarear,
sorri de felicidade divina -
acolhe o mundo no teu quarto.
sem o medo, sem vacilar,
goza a vida em amor, menina,
feliz em teu próprio parto.
....
(imagem: resistence, de ana nicolau)
marulho de nana às 13:13 14 ondas
búzio dentro da amizade, do amor à vida
quarta-feira, abril 18, 2007
carta ao filho do menino que vai ser pai
querido pequenino,
benvindo.
sei que não nasceste ainda, mas como diz o poeta “em qualquer aventura, o que importa é partir”, e tu partiste já para te juntares a nós nesta vida que, diga-se o que se disser, digam-te o que disserem, é mesmo muito boa e bonita.
falei-te do poeta porque sei que não vai ser preciso muito tempo até que aprendas a palavra poesia, que a sintas no sangue, no sentir, no respirar, como o teu pai.
o teu pai, esse crescido sempre menino, há-de ensinar-te a poesia.
ou talvez não ensinar-te, porque não é assim que ela se aprende, mas há-de acarinhar-te com o sorriso do vinicius, do pablo, do drummond, da sophia ou do eugénio, entre tantos outros. e hás-de, tu também, tratá-los por tu, pelo primeiro nome, esses amigos que nunca conheceremos, mas que a nós parecem conhecer tão bem.
como há-de embalar-te ao som da elis, do chico, do tom, do toquinho, e tantos outros que te pintarão os sonhos com a música da poesia, com as suas próprias palavras, e as desses outros que nos dão a magia da vida de bandeja, mesmo quando a não vemos nós, meros e especiais mortais, que com eles encontramos a felicidade numa nesga de mar, num pedaço de fruta, ou num abraço amigo.
a amizade, pequenino, também ele ta há-de ensinar, e que professor vais ter! teu pai menino é daqueles amigos que ficam – um dia hás-de saber também das pessoas que não passam.... -, seja para abrir a janela que dá para esse mar, para por nós colher essa fruta, ou para escrever num pedaço de papel um qualquer poema que nos fará voar mais alto que nós próprios sonhámos ser capazes de fazer.
falo-te pouco da tua mãe – peço-te desculpa por isso – porque a não conheço tão bem. mas não duvides que a sorte que tens é mesmo muito, muito grande. mesmo não a conhecendo pelo sentir, como a esse AMIGO que é o teu pai, posso dizer-te uns segredos, que o não são, sobre ela:
a tua mãe, pequenino – sim, como o teu pai. e é tão bonito, o seu amor, também por isso... –, canta quando ouve a palavra liberdade, luta pela justiça como se não soubesse não o fazer, sorri lágrimas felizes quando se fala em abril. é menina, também. nenhum deles se deixou esquecer no caminho para a vida adulta.
já viste a sorte que tens?....
por isso, pequenino – porque, não sei porquê, sinto-te menino, sabendo que se fores menina o amor, a partilha, o sonho, serão iguais -, mais que dar os parabéns aos teus pais, é a ti que congratulo (que palavra difícil, esta... não precisas de a aprender já, está bem?...).
pelos pais
amigos
meninos
que já tens.
por tudo o que és
já
neles.
vem.
podes vir quando for,
seguro de que te aguardam
de sorriso nos olhos,
ansiosos por te receber
e embrulhar
em amor -
maravilhados,
maravilhosos,
de vida
em flor.
....
(imagem: expecting my baby, de julio alejandro)
marulho de nana às 17:48 11 ondas
búzio dentro da amizade
quinta-feira, abril 12, 2007
retorno.
" existence is a young child
moving through a lane
at night:
it wanted to
hold my
hand. "
(st. catherine of siena)
.
renasço na vida...
em mim.
....
(imagem: rebirth, de ana nicolau)
marulho de nana às 20:09 12 ondas
búzio dentro do amor à vida
quinta-feira, abril 05, 2007
tempo de vida.
hoje é dia de ir ver-te.
arrumo bem os sentires,
calo a
(outra)
dor,
engulo o
(outro)
medo,
sufoco a
(outra)
morte,
e vou.
vou agarrar-te a mão
vou olhar os teus olhos
dar-te os meus a olhar.
vou enchê-los de toda a côr
todo o sorriso
toda a força
que agora falta
e fazê-la
renascer
para ti.
em ti.
levar-te a vida
levar-te o mar
levar-te o mundo
que te escapa
como gotas que não doseias.
que já não podes controlar.
levantar-te dessa cama
salvar-te o corpo que não sei
arrancar-te à tristeza
pesada como lama
mostrar-te os lugares que por ti abracei.
quero dançar contigo a dança dos relógios antigos.
por isso hei-de aproximar a cadeira da cama.
e hei-de fazer-te festas
olhar-te a medo
analisar cada marca
cada diferença
- tu para além de mim
para além de tudo
nesse sítio só teu
de fantasmas
medos
e
desmesurada
coragem.
...
a verdade é que tenho muita vergonha
do nada que posso fazer.
de verdade.
de certeza.
qualquer que.
a verdade é que me choca
de maneira cortante
- como se o não soubesse
tão dentro de mim -
este nada que somos
no tudo que fomos,
esta alma sem peso
na vertigem do fim.
....
(imagem: graça morais, da série "as escolhidas" - sépia sobre papel)
quarta-feira, abril 04, 2007
terça-feira, abril 03, 2007
renascimento menino
" Os contos de fadas são mais que verdade -
não porque nos dizem que os dragões existem,
mas porque nos dizem que os dragões podem ser derrotados. "
(G. K. Chesterton)
"el laberinto del fauno"
é cinema puro.
assim mesmo,
com toda a franqueza
crueldade
e beleza
do ser-se puro.
e toda a noite
por sobre a trovoada
perdida
nos céus
e nos dragões
de mim
a mais doce
das vozes
de embalar
a cantar-me
a lembrar-me
a vida
para além do fim.
marulho de nana às 02:07 2 ondas
búzio dentro de viver o cinema, do amor que não
domingo, abril 01, 2007
june says goodbye to her name
sentou-se à mesa e escreveu.
escreveu, escreveu, escreveu, escreveu.
escreveu até não haver mais palavras para tudo o que contaminava, dentro.
como doença.
essa que.
escreveu tanto que a luz se cansou, também, das sombras, e foi ao choro de vela que dançou as últimas palavras, jurando a si mesma não correr atrás de quem largou
faltou
falhou
ao amor.
abriu a janela
abriu a rua
abriu a ferida
e fingiu morrer.
- amanhã
se houver vida
serei eu a renascer.
....
(imagem retirada do filme surviving desire, de hal hartley)
marulho de nana às 01:01 6 ondas
búzio dentro do amor que não
quarta-feira, março 28, 2007
memórias para um fim final
" Esperança e desespero de alimento
Me servem neste dia em que te espero
E já não sei se quero ou se não quero
Tão longe de razões é o meu tormento.
Mas como usar amor de entendimento?
Daquilo que te peço desespero
Ainda que mo dês - pois o que eu quero
Ninguém o dá senão por um momento.
Mas como és belo, amor, de não durares,
De ser tão breve e fundo o teu engano,
E de eu te possuir sem tu te dares.
Amor perfeito dado a um ser humano:
Também morre o florir de mil pomares
E se quebram as ondas no oceano. "
(sophia)
não posso dizer que te não amo.
mentiria.
e desde que te perdi pela mentira de nós,
da força de nós,
que recuso a mentira.
a passividade.
o abandono.
tudo me lembrará para sempre o amor mais importante,
de entrega
partilha
equilíbrio
universais
- e mesmo estas palavras serem tão pouco para o que tivemos nós...
era assim quase irreal, lembras-te?
ainda te lembras?
não dava para acreditar.....
quase divino.
talvez por isso condenado,
nós sem o sabermos,
meros humanos a quem foi dado tamanho sentir,
que rasgámos
ferimos
assassinámos
como se eterno.
ou nós.
nós que nem de nós mesmos conseguimos cuidar.
nós na cegueira do amor que se sente,
mas não é feito sentir.
eu prisioneira dos teus gestos
acções
palavras
esses espaços do nada que
a pouco e pouco,
de dor alucinante
em solidão dilacerante,
me definharam em mim,
me sugaram o coração de todo o sangue
e nos lançaram ao abandono do vazio.
e tínhamos tudo.
nós tínhamos tudo
para ser
e sorrir
de vida
feliz.
se tivéssemos acreditado.
ficado.
se soubéssemos que quem ama espera
- não trai definitivamente.
que mesmo depois de traído
quem ama não desiste do sempre.
da força.
mas tu.
tu que traiste o amor, a entrega,
o medo da morte e do fim.
tu que és tão sangue dentro
que não sei o que será de mim.
mas não posso.
não posso ficar.
ou esperar.
mesmo se te amo ainda,
com a dor em vida a pedir-te consolo,
tu que curas as feridas de ti
como se não fosse já nada,
eu....
...
a outros me entregarei.
como tu.
serei feliz.
como tu.
mesmo que a ti prove sempre
quem tocar meu corpo nu.
....
(clip extraído de: le fabuleux destin d'amelie poulain, de jean-pierre jeunet)
marulho de nana às 17:31 13 ondas
búzio dentro do amor que não
segunda-feira, março 26, 2007
sobre "os grandes portugueses":
que triste o pouco valor que se vai dando à liberdade que
hoje
temos...
[AEPPA - Associação de Ex-Presos Políticos Antifascistas
Documento elaborado entre 25 de Abril e 30 de Setembro de 1974.]
...
ao realizador da rtp
por ter terminado o programa
num grande plano da imagem de zeca afonso
o nosso obrigada.
o deles,
também.
e tantos que.
porque não esquecemos.
.....
[Imagem (clicar sobre a mesma para melhor visionamento): pág. 67, de Mil Dias, Editora/Sérgio Guimarães, Diário de uma revolução, 1º Vol., sob direcção de Orlando Neves, com a colaboração de Carlos Pinto dos Santos, Carlos Osório, Eduardo Maia Cadete, José Carlos Vieira, Maria Carrilho, Mario Fabre e fotografia de Hernando Domingues.]
marulho de nana às 05:04 11 ondas
búzio dentro da liberdade, da minha terra
sexta-feira, março 23, 2007
é meu o grito desumano.
calado.
de não saber.
de mim ou ninguém.
de me ser amputado o gesto
quando estendo o braço a quem.
mas não desisto.
não me fico.
a minha força
é a do que sou.
da onda que limpa
e do mar que a criou.
se sozinha for,
sozinha vou.
a força tem de ficar.
como quem não desiste
e sonha o futuro.
como quem desafia
a morte no escuro.
a verdade é só uma.
ser forte é querer.
tudo o resto
mentiras
a trair o viver.
....
(imagem: trying to fit in, de dale wicks)
marulho de nana às 18:21 9 ondas
búzio dentro da luta, da vida, do amor que não
quinta-feira, março 22, 2007
ao lutador.
um ano depois.
" Intervalo
Eu só quero silêncio neste porto
Do mar vermelho, do mar morto
Perdida, baloiçar
No ritmo das águas cheias
Quero ficar sozinha neste espanto
Dum tempo que perdeu a sua forma,
Quero ficar sozinha nesta tarde
Em que as árvores verdes me abandonam. "
(sophia)
...
se ao menos eu pudesse
tanto.
....
(imagem: soaring alone, de bill nyman)
quarta-feira, março 21, 2007
dia de.
à poesia
onda
ar
libertação
de mim
e aos poetas
que me embalam
regam
marulham
a vida
e os sonhos...
o meu obrigada.
(não ler este poema até ao fim
é um crime
que cometerão
sobre vocês mesmos.)
" Ode à Poesia
Perto de cinquenta anos
caminhando
contigo, Poesia.
A princípio
me emaranhavas os pés
e eu caía de bruços
sobre a terra escura
ou enterrava os olhos
na poça
para ver as estrelas.
Mais tarde te apertaste
a mim com os dois braços da amante
e subiste
pelo meu sangue
como uma trepadeira.
E logo
te transformaste em taça.
Maravilhoso
foi
ir derramando-te sem que te consumisses,
ir entregando tua água inesgotável,
ir vendo que uma gota
caia sobre um coração queimado
que de suas cinzas revivia.
Mas
ainda não me bastou.
Andei tanto contigo
que te perdi o respeito.
Deixei de ver-te como
náiade vaporosa,
te pus a trabalhar de lavadeira,
a vender pão nas padarias,
a tecer com as simples tecedoras,
a malhar ferros na metalurgia.
E seguiste comigo
andando pelo mundo,
contudo já não eras
a florida
estátua de minha infância.
Falavas
agora
com voz de ferro.
Tuas mãos
foram duras como pedras.
Teu coração
foi um abundante
manancial de sinos,
produziste pão a mãos cheias,
me ajudaste
a não cair de bruços,
me deste companhia,
não uma mulher,
não um homem,
mas milhares, milhões.
Juntos, Poesia,
fomos
ao combate, à greve,
ao desfile, aos portos,
à mina
e me ri quando saíste
com a fronte tisnada de carvão
ou coroada de serragem cheirosa
das serrarias.
Já não dormíamos nos caminhos.
Esperavam-nos grupos
de operários com camisas
recém-lavadas e bandeiras rubras.
E tu, Poesia,
antes tão desventuradamente tímida,
foste
na frente
e todos
se acostumaram ao teu traje
de estrela cotidiana,
porque mesmo se algum relâmpago delatou tua família,
cumpriste tua tarefa,
teu passo entre os passos dos homens.
Eu te pedi que fosses
utilitária e útil,
como metal ou farinha,
disposta a ser arada,
ferramenta,
pão e vinho,
disposta, Poesia,
a lutar corpo-a-corpo
e cair ensangüentada.
E agora,
Poesia,
obrigado, esposa,
irmã ou mãe
ou noiva,
obrigado, onda marinha,
jasmim e bandeira,
motor de música,
longa pétala de ouro,
campana submarina,
celeiro
inextinguível,
obrigado
terra de cada um
de meus dias,
vapor celeste e sangue
de meus anos,
porque me acompanhaste
desde a mais diáfana altura
até a simples mesa
dos pobres,
porque puseste em minha alma
sabor ferruginoso
e fogo frio,
porque me levantaste
até a altura insigne
dos homens comuns,
Poesia,
porque contigo,
enquanto me fui gastando,
tu continuaste
desabrochando tua frescura firme,
teu ímpeto cristalino,
como se o tempo
que pouco a pouco me converte em terra
fosse deixar correndo eternamente
as águas de meu canto. "
Pablo Neruda
(Tradução de Thiago de Mello)
....
(imagem: poetry, de ?)
terça-feira, março 20, 2007
verdade(s).
eu agora só queria fugir.
pegar em mim, em tudo o que sou, e correr correr correr, correr até não haver mais areia para os pés, correr com tanta força que o vento se visse empurrado a desenhar-me lágrimas de olhos, e que essas lágrimas me furassem a pele, me rasgassem por dentro, me obrigassem todo o corpo a chorar.
eu agora só queria chorar.
chorar, chorar, chorar, chorar e chorar. só isso. não sei que mais liberte este sentir tão confuso, tão cheio de vazio, tão tudo de nada, tão seco por mim. que me não permito. e me não proibo. que vivo, só, e isso é tão pouco, parece tão pouco, tão nada, agora.
eu agora só queria dormir.
fechar os olhos ao mundo, fechar os olhos à dor. dormir para além dos outros, dormir para além de mim. sonhar?... só se o mar. não quero outro sonho que não o mar de mim. tudo o resto passa, tudo o resto vai. tudo o resto é sonho. tudo o resto é só o que não é para sempre.
eu agora só queria não ser.
não existir, por um bocadinho. não ser, não precisar, não saber. queria fundir-me num grito que tocasse o imenso presente de agora, me ensurdecesse, me fizesse não saber de mim, dos outros, de nada.
eu
agora
só queria que não existisse
nunca mais
o nunca mais.
....
(imagem: despair, de gwendalin qi aranya)
domingo, março 18, 2007
quotidiano(s).
toco o cobertor.
por debaixo a coberta, por debaixo o lençol, só depois a mão dele. mas sento-me à ponta da cama - não consigo chegar-lhe à mão. toco o cobertor, só – não consigo chegar-lhe à mão.
o tempo pára.
ali, o tempo não deixa passar a vida, não deixa sonhar o que vem. ali o tempo pára, e tudo o queremos, vivemos e damos é só nada.
é espera, só.
enlouquecemos à procura de saber o que esperamos, se isto ou, aquilo ou talvez, e não sabemos – nós não sabemos o que esperar.
há tubos por todo o lado, e o cheiro, o cheiro é tão característico, não de um sítio igual a este, mas este sítio igual a si mesmo, igual a este momento, a este nunca mais que custa a passar, esta verdade que nos faz reclamar, sem o direito, sem um sujeito que venha, saiba, diga. verbos, precisamos de verbos, acção, não é assim? ...... corrói-me por dentro tudo aquilo contra o qual nada posso – dêem-me coisas, dêem-me nadas para pontapear e castigar, como se. falta-me o ar, estou enjoada, socorro, a impotência mete-me nojo, a minha, eu que nada posso contra o sofrimento de, eu que nem sei dizer o que virá amanhã, se lhe devemos sorrir ou pedir que não chegue.
...
não largues a mão, não cedas ao medo
– ajuda o tempo a respirar
respira-o fundo, enconcha, marulha
– cala-te o frio que teima em chegar
....
(imagem: afraid of the dark?, de peter kozikowski)
segunda-feira, março 12, 2007
sexta-feira, março 09, 2007
30 (parte 2: aquilo que fica)
agora
já tenho
um marco
físico
para os meus 30 anos.
...
obrigada
a ti
por todo o trabalho
acarinhado
que.
porque
não sei
mesmo
dizer
o tanto
que significa
em mim.
....
e porque já algumas vozes
falaram
pediram
uma reposição,
aqui fica,
no mais indicado dos posts,
fotografias de telemóvel,
cá e lá,
música dos killers,
e muita noite em frente ao pc,
(maldito movie maker!!!!),
a brincar com o editar,
na não tão longínqua londres.
"eu longe".
marulho de nana às 11:31 6 ondas
búzio dentro da familia, das datas
quinta-feira, março 08, 2007
hoje celebro
terça-feira, março 06, 2007

podia dizer-te que enlouqueço.
aos poucos, aqui, assim, sinto-me enlouquecer.
quando imagino o passado, o acreditar de tanto, o equilíbrio,
para além da vida,
o tudo que nunca conheceu ninguém senão nós,
podia,
podia dizer-te que duvido tê-lo vivido realmente,
que chego a duvidar de que algum dia tenhamos mesmo existido.
ou que tenha existido
eu
em verdade
em ti.
porque o canto do teu silêncio é mais claro que as memórias, mais perfeito que nós, mais forte que eu.
e sinto só
para além de tudo
a revolta.
a revolta de me não levantar, olhar a tua ausência nos olhos, fazê-la a ela sentir o medo, o terror, o veneno que.
mas a cada dia
a cada dia
de abandono
largo-te de nós.
roubo-te às memórias –
tu que não mereces,
tu que não lembras,
tu que não amas.
cubro o meu sentir
e ergo-me
hei-de erguer-me
sozinha.
seguir em frente.
desculpa
(ou não):
tenho um compromisso
de vida
com a vida de mim.
....
(imagem: letting go, de annekarin glass)
marulho de nana às 22:20 3 ondas
búzio dentro do amor que não



